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segunda-feira, 10 de março de 2014

Desapegos Desastrosos


Esses dias, resolvi obedecer a um antigo psicanalista e cumprir a tal “Lei do Desapego”. Acho que só não fiz isso antes de raiva. Do psicanalista, claro, pois o cretino me cobrou uma fortuna por conselhos que qualquer um desses programinhas que passa de tarde nas TVs Records da vida, ou cantor sertanejo me diriam de graça. Ok, passando o momento de negação, vamos então aos “desapegos”.

Partindo do princípio que a necessidade do desapego advém de uma prática - provavelmente chupada do Feng Shui ou qualquer outra coisa que os orientais apregoam – que condiz que devemos reciclar nossas energias através da eliminação de objetos materiais que não usamos e estão estagnando um possível progresso em nossas vidas, achei válida a tentativa. Dizem os conhecedores, que ao acumularmos tantas coisas inúteis, ficamos amarrados energeticamente a elas, dependentes de sentimentos passados que não nos fazem mais bem. Ou seja, guardar aquele papel de bala que o fulaninho te deu, só porque “foi a primeira bala que fulaninho te deu”, além de denotar que você tem algum instinto de rato ou guaxinim, significa que você não quer largar a energia que te ligava ao fulaninho, sendo que nem ele ou a marca da bala existem mais em sua vida.

Eu realmente não tenho moral para falar dos ratos ou guaxinins, animais que naturalmente acumulam tudo quanto é porcaria em seus ninhos. Sou um “apegado” profissional. Guardo tantas tralhas em minha vida e aposentos que fariam um bazar turco passar vergonha. Todos registros materiais de minhas decepções amorosas e frustrações estão  por aí, espalhados por gavetas e caixas de fundo de armário. Sou uma tragédia pessoal numa montanha de quinquilharias.

Disposto a dar um fim nisso, liguei para a Leidydai. Leidydai é uma moça que trabalha como diarista e faxineira, e de vez em quando me salva da situação do meu apartamento, de tão sujo e desorganizado, se tornar um organismo vivo simbiótico e me devorar. Como acabou o carnaval, imaginei que a Leidydai – que segundo ela, recebeu esse nome da mãe em homenagem àquela princesa de Mônaco (!) – estivesse precisando de uma grana extra para pagar suas eternas dívidas em paetês e fantasias que ela contrai todo fevereiro. Ah sim, Leidydai é passista de pelo menos trinta Escolas de Samba que existem por aí, e diz que só fará faxinas até virar a próxima Globeleza ou rainha da bateria do Salgueiro ou da Mangueira - sei lá, uma dessas.

A missão da Leidydai dessa vez era mesmo digna de enredo de Escola de Samba: me ajudar a dar fim nas minhas quinquilharias passadas, dignas de centenas de histórias que não deveriam fazer mais sentido na minha vida.  E a cada gaveta aberta, a cada caixa revelada, a cada armário desbravado, lembranças voavam agitadas pelo meu apartamento como morcegos desnorteados. Mas na realidade, confrontar seu passado e estar disposto a jogá-lo fora, te dá uma sensação única de poder. Talvez a história não ganhe uma nova ordem ou um final melhor, mas certamente, você enfim sente-se livre. Livre de mágoas tolas e arrependimentos desnecessários. Livre de algo que já se foi. Livre até mesmo de um pedaço de você mesmo.

De bilhetes, cartas e fotos, até detalhes mais prosaicos de uma relação, como tickets de cinema e os absurdos papéis de bala, tudo estava lá, lembrando-me de pessoas, dias e horas com essas pessoas, alegrias e tristezas com essas pessoas. Anos e anos em vão, entupindo minhas gavetas. E eu, ironicamente, reclamava de espaço para guardar minhas cuecas e meias.

- O que o senhor vai fazer como esses aqui? – perguntou-me Leidydai, assim que encontrou um saco plástico cheio de ursos de pelúcia, após tossir poeira e ácaros. 

Ursinhos de pelúcia! Cacete, existem mulheres que presenteiam seus namorados com ursinhos de pelúcia! Ok, sem discussões de gênero aqui, mas não existe maneira mais bizarra de infantilizar o homem da relação do que dar-lhe um urso, coelho, tatu-bola, lagarto, ornitorrinco, e sei lá que outra espécie da fauna, de pelúcia. Quem sabe uma mamadeira e uma chupeta da próxima vez? Eu tive uma namorada que, se o IBAMA controlasse animais de brinquedo, ela estaria presa há séculos. Realmente, é impossível um relacionamento ir à diante, pressupondo que esses exigem maturidade, enquanto o casal ficar trocando criaturinhas fofas de pelúcia! Qual seria a ideia por trás disso? Arrastar a infância para dentro da alcova do casal? Não, não, perturbador.

- Leidydai, jogue esse zoológico de pelúcia fora – ordenei.

- Sr. Apêndice, posso ficar com eles e dar aos meus filhos? – questionou-me a faxineira.

- Você têm filhos, Leidydai?

- Ainda não, mas um dia eu vou ter. – respondeu-me Leidydai, convicta de uma lógica um tanto própria.

Dei de ombros e assenti que sim, desde que aqueles bichos ficassem longe de mim.

A sessão de cartas e bilhetes foi outra decadência existencial que sucumbiu sobre mim. É que eu sou de uma geração pré-Facebook, Whatsapp e sei lá mais quais apps que estão na moda. Eu era de uma época em que as pessoas utilizavam papel e caneta para registrar a escrita. Os namoros eram assim também, sentimentos verbais eram marcados com traços de esferográficas sobre calhamaços de celulose.

Quando eu era criança, ganhar um bilhetinho da colega de aula dizendo que “você era bonito" e que "ela gostava de você”, valia tanto quanto uma medalha de guerra. Ainda mais porque eu nunca ganhei um desses. Mas acho que por casos como esses, se perpetuou um ritual nos relacionamentos de enviar palavras escritas, pois talvez a validade material tivesse mil vezes mais poder que a validade sentimental, etérea e intangível. Você não pode segurar um “eu te amo”, mas pode ir ao bilhete de folha de caderno arrancada que diz o mesmo, quantas vezes você quiser.  O problema, que ao final inevitável das relações, fica toda uma Biblioteca de Alexandria perdida na sua vida, esperando um arqueólogo corajoso a desbravá-la. Chega a ser é cômico: quantas vezes você não abre “aquela” caixa, cheia de lembranças de um relacionamento passado, só porque tem medo do que possa sentir? Muitos até colocam um aviso de “não abra” sobre a caixa, evitando o confronto com aquela Pandora sentimental. Por isso, ponto para a teoria do desapego: jogue tudo fora, queime e não se incomode mais com o monstro de dentro do armário, ou de baixo da cama, ou sei lá mais onde você guarda essas relíquias do relacionamento morto.

Com as fotos o caminho foi quase o mesmo. Repito o discurso de matusalém, mas eu sou de uma época ancestral ao Instagram, de uma era em que as pessoas tiravam fotos, levavam seus rolinhos de 12 a 36 poses para revelar, e depois as resgatavam, impressas em papel filme. E como momentos cristalizados, congeladas em um tempo-espaço em que parecemos felizes para sempre, lá elas estavam, fotos e mais fotos de namoradas antigas que agora moravam escondidas em minhas gavetas. Em era do .jpg, as milhares de fotos que tiramos ficam vagando em redes sociais ou perdidas em alguma pasta do HD de um computador. O acesso não é mais o mesmo. As provocações do destino não são mais tão ferozes. E além do mais, o botão delete está ali, sempre de prontidão. E se ele ainda não for eficaz, nada como um bom vírus para destruir sua Placa Mãe e enviar seu PC para o lixo, junto com as memórias digitalizadas.

O engraçado é que eu pensei que rever as fotos antigas seria algo mais doloroso. Na verdade, ao me rever em minhas fotos do passado, acabei mudando minha ótica sobre quem eu era naquela época. Ao ver minha cara de moleque ridículo há mais de uma década, tive que assumir: “agora eu sei porque ela me chifrou”. Ter um olhar despido de paixão ou raiva me deu a lucidez de que essas antigas namoradas nunca foram tudo isso que eu imaginava até os dias de hoje – até mesmo porque muitas já estão gordas ou velhas. Ah, o tempo - ele pode ser bem reconfortante, ainda mais quando ele passa. De posse a inúmeras fotografias, a ordem foi apenas uma a Leidydai:

- Queime-as.

Leidydai sorriu para mim com uma cara de cumplicidade e disse:

- Ahhhh, eu sabia que o senhor ia na mesma Mãe-de-Santo que eu...

O desapego seguiu, num gosto acre-doce de despedidas. Foram alguns CDs, alguns livros, roupas, lembranças tolas e os mais variados eteceteras. No final da jornada, para minha surpresa, tanta tralha não se resumia em um mundo sentimental que eu achei que havia construído. Acho que é porque, no processo de confrontação com o passado, eu percebi o quanto tais energias eram realmente desnecessárias. Ficou claro, que as lembranças não digeridas pela alma ganham proporções maiores do que elas realmente são. Livrei-me mais do que quinquilharias – fui liberto de amarras existenciais insensatas e, até mesmo, ridículas. Eu não precisava de coragem para mexer naquelas velhas caixas e gavetas - precisava mesmo era de vergonha na cara.

Fiquei um tempo olhando para o novo nada que se apoderou das minhas gavetas e armários, pensando por um breve momento se minhas ex-namoradas tinham se livrado de tudo que dei a elas, mas fui – graças aos céus – interrompido de meu estado introspectivo por uma exclamação de Leidydai:

- Sr. Apêndice, encontrei uma caixa aqui com umas pedrinhas brilhantes!

Pedrinhas brilhantes? Será que Leidydai achou improváveis pedras preciosas de um parente pirata que eu nunca tive? Fui conferir, e então, meu coração encheu-se de nostalgia quase me levando as lágrimas: eram meus Geloucos da Coca-Cola! Deus do céu! Quantos litros de refrigerante eu tomei para completar a coleção? Não sei como não morri de tanto sódio e açúcar! Há anos estavam esquecidos no fundo de meu armário, e o pior, do limiar da minha memória. Fiquei num transe infantil, até ser novamente interrompido por Leidydai:

- Sr. Apêndice, e aí, jogo eles fora junto com o resto de coisas do desapego?

- Não, Leidydai, guarde meus Geloucos de volta!


Afinal, tudo tem um limite. Até os desapegos. 


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Sai daqui!"



Por que afastamos as pessoas de nossos relacionamentos, por sermos apenas nós mesmos?


Não sei o que veio primeiro: se foi a tampa da privada que ficou levantada ou a b
riga pelas gotas de urina que caíram milimetricamente fora do seu destino. Também é difícil explicar quantas guerras mundiais começaram por calcinhas penduradas nos registros do chuveiro, e como toalhas molhadas em cima da cama fazem a alegria financeira das funerárias. Tudo o que sei é que quando um relacionamento começa a ficar mais podre do que peixe fora da geladeira, somente as pessoas envolvidas nele são as verdadeiras culpadas. E essas, normalmente, ao sentirem a coisa feder, tratam logo de se escapulirem.
Fiquem certos de uma coisa, estimados leitores: um relacionamento insustentável é pior do que uma viagem até o Canfundó do Judas, num calor escaldante de 40º, em um ônibus velho e sem ar-condicionado, fedendo a vômito de criança e sovaco de pedreiro. Mesmo que eu tenha arranjado briga com toda uma classe de operários de construção cívil que não usa desodorante, vale a ilustração: na vida sentimental, é mais fácil correr do que ficar e encarar as consequências por nossas falhas. Afinal, crueldade ou não, as pessoas são as principais responsáveis pela maioria das coisas que não dão certo em suas vidas.

Claro, isso nem sempre se constitui em uma regra. A vida é sacana mesmo, e às vezes as pessoas estão isentas das merdas que lhes acontece. Que digam as criancinhas que nasceram sem braço e que batem palmas nos programas do Teleton. Mas na maioria dos casos, a fatalidade acontece quando uma criatura coloca o braço pra fora para mandar o motoboy se fuder, e não vê o ônibus que vem na mesma direção. Nos relacionamentos amorosos a dinâmica é quase a mesma. Tudo pode estar indo muito bem, mas lá nas tantas, alguém inventa de ensinar para o outro a metodologia científica de como se apertar uma pasta de dentes de acordo com as normas técnicas da ABNT e o relacionamento começa a entrar em maus lençóis.


Aí neste ponto você me pergunta: "ok, seu retardado de saco de papel na cabeça, como uma coisa tão ridícula pode fazer com que um relacionamento
comece a dar errado?" E o titio Apêndice aqui te responde: ora, são nas pequenas coisas que as grandes nos são reveladas. Pensem no DNA. Ele é microscopicamente impossível de ser visto, mas de acordo com os geneticistas, ele possui todas as informações possíveis sobre alguém, desde a cor do seu cabelo, até seu peculiar gosto por sorvete de pistache com cobertura de aspargo. E nem é preciso ir ao fundo de suas células para se saber da coisa mais óbvia sobre os humanos: eles são chatos, cheios de manias e nunca estão satisfeitos com nada.

Lembro que disse uma vez nesse blog que conforme as pessoas fossem complicadas seus relacionamentos seguiriam a mesma tendência. E como todos estamos cansados de saber, o amor é uma coisa complexa demais. Vão a PQP aqueles que dizem que o amor é simples e natural que "desabrocha" na vida de todos. Não. Coisa simples e natural na vida de todos é fazer cocô. No amor é assim: a partir do momento que você junta dois seres diferentes dispostos a dividirem um sentimento, a encrenca está armada. Dois corpos acoplados, dividindo a mesma cama na hora de descarregar suas tensões e necessidades sexuais é algo belo, poetizado por séculos e comercializado há anos pela indústria pornográfica. Porém, quando o assunto é "vira para o lado que eu quero dormir" a história muda de figura. Haja sentimento e paciência para dividir o ar e os gases com alguém que ronca ao seu lado. É como um amigo costuma dizer: "a transa perfeita é aquela que vira pizza e cerveja depois que você goza."

Mas voltando a realidade, muitos parecem se esquecer que um relacionamento não se sustenta em apenas um lado. A maioria continua colocando suas necessidades e individualidades acima do bem comum e dos próprios sentimentos compartilhados. A ironia nisso tudo fica em nossa incapacidade de lidarmos com nós mesmos, pois procuramos desculpas e saídas em tudo, menos onde mais importa. Ouvimos explicações do tipo "minha astróloga disse que meu namoro não deu certo porque Áries entrou em conjunção com Saturno e que as chuvas no interior de Pindamonhangaba foram decisivas para o nosso fim." Ah, por favor... Por que simplesmente não encontramos as falhas em nós mesmos antes de inventarmos de nos relacionar com uma outra pessoa? Já diz o sábio ditado: "arruma tua casa antes de receber visitas". Pois é...

Mesmo assim, continuamos a deixar que nosso egoísmo, egocentrismo, egotismo e sei lá mais quantas coisas que começam com "ego" sigam a manchar nossos relacionamentos, pois não sabemos como os conter. Dessa maneira, sempre que entramos numa relação, parecemos infantis e mesquinhos o suficientes para compartilharmos algo de bom com alguém (ou pensam que eu não sei que ninguém é 100% verdadeiro oferecendo bolachinhas recheadas para os outros e que só fazemos essa balela por educação?). Não saber como dividir algo com alguém, é um índice da falta de aptidão dos seres em lidar com os outros. Logo, quando formos atingidos por aquelas coisas chatas que seguidamente nos assolam, como as tristezas e as birras com o mundo, não vamos saber como maneja-las direito, principalmente se tivermos uma pessoa ao nosso lado. Aí vamos recair em cometer uma das maiores burradas que os seres humanos vivem a fazer desde os primórdios, que é brigar e descontar nossas insatisafações em quem a gente mais gosta. Um outro amigo e leitor de minhas crônicas, disse em seu blog, o Grau Zero, uma coisa genial: "tem mais de 6 bilhões de pessoas no mundo, mas é apenas com aquelas 3 mais próximas e que se importam conosco que a gente briga".


E não é verdade? Triste, mas em vários relacionamentos, muitos ficam tão centrados em suas manias, que acabam valorizando mais seus umbigos do que seus corações. Além disso, esses infelizes acabam se tornando verdadeiros especialistas em manter as pessoas afastadas. Não é de se suspeitar, que são justamente essas pessoas que mais se queixam de como são infelizes no amor. Porém, quando se aproximam de alguém, partem para cima do outro como se fosse uma luta de boxe. Para essas pessoas, uma placa de "sai daqui!" lhes pouparia litros de saliva e lágrimas. O mais espantoso é que essas criaturas vivem a afastar seus relacionamentos, e ao invés de fazerem um auto-exame de consciência decente, se tornam ainda mais toscas e exigentes, aumentando suas dificuldades em lidarem com novas oportunidades e pessoas.


Querem carinho e atenção, mas não sabem nem ao menos cuidar de uma planta. Reclamam que ninguém escuta seus sentimentos, mas não aguentam 5 segundos de papo de um serviço de Telemarketing (ãhn... ok, isso é compreensível...). Enfim, exigir dos outros é sempre mais fácil e barato, mas seria muito mais simples para o mundo dos relacionamentos se todas pessoas soubessem dar o que elas tanto requisitam. Porém, é mais fácil ganhar na Mega Sena acumulada do que corrigir essa falha condição humana.
 

O mundo é tão bizarro que há aqueles que não se aturam sozinhos, e por isso inventam de se juntarem a outros seres humanos tão maníacos quanto eles. Da mesma maneira, há também aqueles que só conseguem viver em pleno isolamento, dedicados apenas a suas refeições congeladas e seu controle remoto, intocável por qualquer outro ser humano na face da Terra. No final, fica cada um por sua conta e risco. Relacionamentos podem ser bons indicativos para aprendermos a lidar com nossas próprias manias antes mesmo de entendermos qual é o esquema da tal outra pessoa. No entanto, ser aprovado nesse teste não é nem um pouco fácil. O vestibular de Medicina da USP é mais barbada. Até mesmo porque, o difícil nessa história de relacionamentos, é saber como lidamos com a complexidade da vida. Além, claro, de dominarmos a tal técnica de se mijar com a tampa do vaso levantado.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"A Ópera do Fracasso"


Uma ladainha visceral sobre o fracasso em seis atos

(Mas antes, um último gole de whisky. Preciso disso. Não tem whisky? Então vai um vinho doce em garrafa de plástico mesmo. Ok, vamos lá...)


Ato I- "E o amor di
sse 'Não'"

(Como sempre, tudo começa com um fim...)

Fracassei, mesmo sem ter literalmente fracassado. Quando um relacionamento chega ao final, não se tem realmente certo ou errado, passivo ou ativo, fracasso ou fracassado. Mas há dor, lágrimas e toda aquele blá-blá-blá que todos conhecem. (Suspiro). Vocês sabem, já cansei de falar sobre o
fim por aqui. Mas com o fracasso é diferente, pois não se trata de um simples dramalhão com fiascos pela rua e demonstrações públicas de recalque, nem mesmo o típico véu de lágrimas. Não mesmo! Nã-nã-ni-na-não.

Mas, por mais que todo o fim seja um funeral de corações, convenhamos, nessa história de relacionamentos, apenas um morre de verdade. Enquanto quem nos dá um pé na bunda e vive sua "nova fase" (haja cretinice nesse mundo...), nós sentamos na graxa e saímos com o peso do fracasso nas costas. Ficamos com um "se" pendurado no pescoço, refletindo nas eternas variáveis e possibilidades do que poderia ter sido diferente. Mas não adianta, isso no mundo dos relacionamento "non ecziste", como diria o
Padre Quevedo. Quando o amor diz "não", não há nada o que se fazer.

Então, se um fim de relacionamento é tomar em nosso oríficio retal favorito, fracassar seria coçar as hemorróidas propriamente ditas. O fracasso é realmente pior, ele é uma desgraça íntima, subconsciente e persistente. Querendo ou não, mesmo exonerados de culpa alguma, somos acometidos a nos sentir devastados sentimentalmente pelo peso do relacionamento póstumo. Saber o motivo, a razão e as circunstâncias do fim, entender o porquê estamos sofrendo daquele jeito não serve nem adianta para porcaria nenhuma. É melhor ir jogar
Detetive, e acusar o Coronel Mostarda com a chave inglesa na sala de estar.

Ato II - "Enterrado vivo pelo amor"


(Por que ainda pulsa algo que não existe mais? Ah, não... ainda existe algo! Ou pior: resiste algo ainda...)

Passam os dias, e mesmo após termos tentando, re-tentado, acreditado, re-acreditado, implorado, rezado para todos os santos, Deus e o Diabo, a situação inglória de derrotados em um relacionamento é o que costuma nos esperar. Acreditamos em uma relação, vivemos por ela, e até mesmo, demos um passo maior que as pernas. Por fim, fomos nocauteados por nossas próprias ilusões. Que sina! Encontramos aí o nosso purgatório particular, e de nada adianta pedir por piedade ou clemência. Nem para o citado Padre Quevedo, muito menos para nós mesmos.

Ah... Se há maldições nessa vida, a sensação de fracasso é a maior delas! Maldição perniciosa mesmo, digna de se ser rogada por uma cigana verruguenta de saia poída e com os cabelos fedendo à fritura na beira de uma estrada. Devo ter feito alguma coisa perversa em outra encarnação, digna de fazer o
Chico Xavier não psicografar o meu caso. Sei lá, roubei um frango de macumba ou fiz mesmo uma heresia das grossas, como ter estuprado uma freira. Maldição. Repito: mal.di.ção! Mas, pensando bem, isso de um jeito ou de outro pode sempre vir a acontecer com quem está no jogo. Pois, amaldiçoados pelo amor, de uma forma ou de outra, todos nós estamos.

O problema, que detesto falar em voz alta, e que é o substrato da sensação de fracasso, resume-se no fato de que normalmente nutrimos sentimentos por uma pessoa que não está nem aí para nós. Poético, clichê e desgraçado, não? Sim, queremos quem não nos quer mais! É uma explicação cretina, porém real para todo o mal desse fracasso que assola nossas mentes e polui nossos corações. Não podemos fazer mais nada em um relacionamento quando as portas da pessoa alheia se fecham para nós. É assustador, mas trata-se de um funeral para um vivo. É ser enterrado vivo pelo o amor. (Paradoxalmente, sofrer por isso nos faz sentir vivos, enquanto o coração frio da outra pessoa a torna morta... Ok, vamos tentar nos enganar mais um pouco...)

Ato III - "Matando a solidão"
(Deve existir algo que eu possa fazer. Ou talvez 'você'...ou 'você'...)
Dizem os especialistas que o ser humano é capaz de se acostumar com quaisquer tipos de dor. Vi isso em um Globo Repórter, sobre o tema "enxaquecas". Inclusive nesse programa, tinha um velhinho que há 40 anos vivia interruptamente com dor de cabeça, mas já estava adaptado ao convívio com ela. O porquê, como ele mesmo definiu: "eu não tenho dor, a dor é que me tem". Sábias palavras.

Logo, acostumar-se com a dor do fracasso é algo a qual podemos nos habituar. Indiferentemente do tempo que aguentamos com o peso sobre os ombros, é natural sairmos da concha de melancolia em que vivemos, nem que seja para dar uma espiada no mundo lá fora. Afinal, como se não bastasse o título de fracasso, a solidão pode vir a cutucar ainda mais nossa perturbada alma. Ninguém é masoquista ou louco o suficiente de passar por esse período sozinho. (Ou não?)

Assim, independente da constante aflição sentimental a qual estamos condenados, em nome do ego ou dos empurrões dos amigos, voltamos ao jogo, mesmo que o placar da última rodada ainda continue correndo. Dane-se o que sentimos! Ainda temos que transformar oxigênio em gás carbônico e desilusões em mais ilusões. Entramos na onda típica de música do
Caetano Veloso, porque se vive numas de "e agora, que faço eu da vida sem você", cujo a solução é "buscar em outros braços seu abraços", etc, etc e tal. (Nossa, por isso que música assim vende!)

Alastrar nosso fracasso, ou mascá-lo silenciosamente, como um chiclete sem gosto na qual insanamente ainda não cuspimos? Dane-se! Talvez funcione tentar dissolvê-lo em novas tentativas de beijar outras bocas! Ou não. Caso não dê certo, ainda teremos garrafas de vodka para beijar nossas bocas. Afinal quem se importa? Quando se trata de um fracasso sentimental, ninguém tem nada a ver com ele, a não ser nós mesmos. E isso é o mais difícil de se admitir. Da mesma forma que ao procurarmos novas pessoas para nos livrarmos de nossa cruz, não estamos "realmente" buscando uma solução. Estamos apenas matando a solidão.


Ato IV - "Arranque as asas de uma borboleta"
(Quem eu estou enganando?)
Ilusões são frágeis. Enganar os outros é algo desprezível, mas tentar nos enganar é algo deplorável. Triste mesmo, como um mendigo esmolando num dia de chuva para fumar uma pedra de crack. Porém, o que são os apaixonados, ou melhor, aqueles que um dia se apaixonaram se não um bando de dependentes químicos, que mendigam por toda aquela sensação inexplicável e insubstituível que é o amor? Você pode se entupir de chocolates, beber litros e mais litros de whisky ou até mesmo cair no desespero de se jogar em diversas relações frugais
que não vai adiantar em muita coisa. Tudo fica na volta de procurar as famigeradas "borboletas no estômago". (Ouvi essa uma vez: "e quem quer matar as borboletas no estômago, se elas fazem cócegas para nos rirmos?" - mandei a criatura tomar em sua cavidade anal e me procurar na esquina do inferno!)

O fracasso, uma vez introjetado em nossas mentes, demora para passar. Ele corrói nossas almas, e não há nada a fazer a não ser lidarmos com ele. A bendita salvação não vai vir tão fácil, nem do Céu nem do Inferno, muito menos daquela criatura que você pega todo o sábado em fim de festa. Só cabe a nós mesmos encontrar a solução para nossos próprios corações machucados, mesmo que ela não exista. Até mesmo porque, muitos que se achavam libertos da maldição do fracasso, do nada, entre o café da manhã e o momento de escovar os dentes, perceberam que nada mudou, e que aquele tempo que era para ser a solução apenas adormeceu a dor de não se ter mais aquela pessoa. Irônico ou não, mas da mesma forma que o tempo pode ser nossa solução ele pode ser o nosso carrasco particular. Afinal, nada impede que ele alimente mais nossas ilusões e o nosso sofrimento.

E como todos sabem, iludir-se é sempre um problema, ainda mais no quesito dos relacionamentos. Pois quem sentiu as tais borboletas no estômago uma vez, vive a desejá-las sempre, até mesmo porque elas serviriam para expulsar as traças que andam roendo nosso coração. Além disso, as ilusões são tão frágeis quanto as asas dessas borboleta, mesmo que essa fragilidade seja dura o suficiente para segurar nosso sofrimento... E aí, quem disse que é fácil encontrar a tal paz de espírito? Ok, na dúvida, arranque as asas dessas
malditas borboletas agora mesmo!

Ato V - "Além da Salvação"


(... fudeu!)


Passará o tempo e as várias cicatrizes do amor serão como tatuagens, encarnadas em nosso ser. A sensação do fracasso poderá ser atenuada, e talvez você pense que tudo isso não passou de uma parte ruim no DVD da sua vida. Os dias passarão, esporadicamente teremos domingos chuvosos para ficarmos com a frase "que merda!" em nossas cabeças. Claro, algumas distrações nos poderão ser concedidas e talvez tenhamos dias em que uma breve lucidez nos será agraciada. Poderemos rir de nossa própria tolice, e todo o sofrimento e fracasso servirá de experiência para não fazermos tudo outra vez (aham...). Ainda assim, talvez um dia o Restart e o Justin Biber possam vir a morrer em um acidente de pedalinho e você irá pensar: "Nossa, ainda há do que se rir nessa vida..."

Mas saiba desde já que você está além da salvação. Sua redenção será uma mera adaptação de sua alma, que também irá modificar-se após um fracasso amoroso. Você sentirá seu coração se tornando mais duro do que pão de uma semana atrás, e sua coragem, será condicionada por um alarme que apitará como um microondas no momento em que você entrar num ambiente instável dos relacionamentos. Paciência, não há remédio ou salvação para essas coisas.
Porque no fundo, nos relacionamentos amorosos, não se trata de descobrirmos "o sentido da vida", mas sim "a sensação da vida".
Eis nossa verdadeira perdição: nossa busca em encontrarmos aquilo, que nem definição deve ter, mas que insistimos em chamar pelo nome da pessoa que nos serve como índice em nossa categoria de decepções amorosas. "Além da salvação", assim é que somos para o amor. Sem mais, nossa ópera parte então para um enfático e sublime final.


Último ato - "Bêbado nas sombras"

(Mais um gole desse tal veneno... Amor? Não, cachaça mesmo!)
Ah, nessas horas, não há muito mais a se dizer. O amor é um desgraçado mesmo, o filho de uma meretriz com gonorreia. Um bastardo cretino! Só ele é capaz de quebrar suas pernas e depois mandar você caminhar. Sim, é bem assim mesmo. (Suspiro.)
E assim a nossa ópera encerra sua ladainha. Afinal, um dia tudo acaba. Relacionamentos, sofrimento, fracassos, amores, a vida... é assim. Tudo vira sombra do que um dia foi. Mesmo que tudo "não termine" literalmente, um dia tudo vira parte do domínio do "já era". E o que ainda pode nos restar é a vodka, que infelizmente, também acaba uma hora ou outra, depois de algumas entonadas. Mas pelo menos nesse caso, você ainda pode comprar uma nova garrafa.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Teu mal é RECALQUE!"

Em todo fim de relacionamento que se preze, sair ressentido não é uma opção, mas sim um acessório do pacote. É aquilo: toda a relação acumula roupa suja o suficiente para transformar o pós-término numa verdadeira lavanderia. Sendo assim, sentir-se ofendido ou indignado com algo que a relação a dois oferece, é mais trivial do que pipoca no cinema. Claro, tem horas em que o relacionamento anda mais por baixo do que tetas de cadela prenha, e qualquer "corno" ou "vadia" viram elogios edificantes.

Porém, mesmo que a situação nunca tenha chegado às vias das farpas verbais e das passagens de ida sem volta aos nossos orifícios retais, com o fim, ainda existirá um sentimento estranho, incomodo como uma unha encravada e azedo como leite talhado. Nessa hora, todo o cuidado é pouco. Podemos fingir que não estamos sentindo nada, deixar essa sensação ir adormecendo e ficarmos mesmo no nível "putodacara" da vida. Ou então, podemos dar vazão a esse sentimento agonizante, e deixar que o lado negro e obscuro que existe em nós tome conta. Estamos falando de liberarmos um veneno dentro de nossas próprias veias, e de abrirmos alas para o carro-chefe de toda negatividade:
o recalque.

Em outra crônica falei de como podemos
encarar o fim, e ao tratarmos de recalque a questão recai, porém, sobre a forma de como processamos o final de um relacionamento. Para um recalcado, a relação nunca chega ao ponto final, pois ele fica ainda contando as exclamações, interrogações e reticências. Particularmente, não conheço ofensa maior do que chamar uma pessoa de recalcada. Outros insultos viram primários e até infantis, diante do peso moral de sentir a frustração, o ódio e a inveja alheia como um escudo para nossa incapacidade de progresso. Acusar alguém de recalcado é algo realmente perverso. Não é um insulto qualquer, como "broxa", "otário" ou "emo". Dizer: "teu mal é RECALQUE!", é quase uma maldição, é como esfregar fezes quentes de cachorro na cara de alguém. Não é só expor um defeito do outro, é praticamente um convite ao esgoto emocional dessa criatura.

Titio
Sigmund Freud explica que o recalque é um problema decorrente da falta de aceitação da pessoa sobre um fato, no caso, um fim. É um trauma que a pessoa guarda no seu inconsciente, que serve como uma autopunição na repressão de seus desejos. Ok, mesmo que vocês não tenham entendido bulhufas desse blá-blá-blá psicanalítico, fica a dica que ao se tratar do recalque de alguém, a coisa é mais feia do que um transplante de rosto. Aliás, convencer um recalcado de que ele está errado sobre algo, é o mesmo que um trabalho de parto dentro de um fusca no escuro.

Um recalcado é acima de tudo, um ser patologicamente teimoso e insistente, alguém que fica batendo na mesma tecla e se nega a seguir em frente. É como se a vida da pessoa virasse uma prisão de ventre, na qual nenhum Lactopurga ou Activia pudesse dar jeito. Claro, não é novidade nenhuma que o fim de um relacionamento é dose, e realmente pode nos deixar sem rumo e tal, mas tudo é a questão do nosso foco sobre o problema. Nesse processo de elaboração do "acabou, não dá mais", ficar "putodacara" é compreensível, e até mesmo aceitável em certo casos. No entanto, recalcar-se, é o mesmo que colar um rótulo de "decadência" na testa. É praticamente assinar um atestado de óbito para nossa dignidade.

O irônico é que um recalcado nunca assume seu recalque! Tio Freud explica que isso é uma defesa do nosso subconsciente, mas não é preciso entrar nas viagens do fundador da psicanálise para se entender a mentalidade de um recalcado. Tudo gira sempre em torno do amor ressentido. Distinguir uma pessoa "putadacara" de uma recalcada é algo relativamente simples. Por mais que o assunto seja o mesmo, são notáveis suas diferenças no modo como expõem seus cotovelos doloridos. Vejam os exemplos: (nota do Sr. Apêndice: as situações e a linguagem podem variar de acordo com os sexos, mas tentei fazer os diálogos bem generalizados)


"Putadacara":
Quando namorávamos, eu fiz o que pude para manter a relação. Não deu certo, foda-se! Mais uma cerveja, por favor...
Recalcada:
Eu fiz de tudo para salvar a relação, e ele(a) não se importou! Por quê? Como assim só penso em mim!!!??? Vai se fuder! E me dá o telefone que eu vou ligar e discutir isso agora...

"Putadacara":
Ahh... ele(a) já tá caindo na night, e já tá armando esquemão... Tudo bem, foda-se, hoje eu pego qualquer um(a) só pra dar nos dedos dele(a) e não ficar pra trás!
Recalcada: COMO ASSIM, ELE(A) VAI FICAR COM OUTRO(A)??? QUEM É ESSE(A) FDP???!!! DEVE SER UM(A) BAITA ESCROTO(A) IGUAL A ELE(A)!!! EU DE CARA? POR MIM QUE SE EXPLODAM, EU NÃO TÔ NEM AÍ... (procurando a navalha e o celular para mandar uma mensagem...)

"Putadacara":
E aí, vamos sair hoje? Sei lá pra onde, o importante é sair e tomar um trago...
Recalcada:
Vi no Twitter e no Orkut do Fulano(a) que eles vão sair e vão aprontar algo! Nós vamos atrás dele(a), e vamos ficar de olho! FDP!!! Ainda posta no Twitter o que vai fazer! Bem tipo daquele(a) ordinário(a)!


"Putadacara": Sim, vi com quem ele(a) anda ficando. O que eu posso dizer? Se ele(a) quer baixar o nível, o problema é dele(a). Claro que tô de cara, mas na boa, foda-se, sou mais eu. E vamos beber...
Recalcada:
TU VIU COM QUEM ELE(A) ANDA FICANDO???!!! UM(A) BAITA PUTO(A), CHINELO(A), VAGABUNDO(A) DIZEM QUE ATÉ AIDS TEM... BAGACEIRO(A), CRETINO(A) É BEM A CARA DELE(A) PEGAR ESSE TIPO DE GENTE!!! EU QUERO MAIS É QUE ELES CASEM, SE CONTAMINEM E MORRAM!!! MORRAM PORQUE EU NÃO TO NEM AÍ!!! NEM AÍ, SEUS MERDAS!!! FODAM-SE OS DOIS, EU TÔ BEM MELHOR!!! HAHAHAHAHA... (riso forçado seguido de choro e/ou ataque de raiva)

"Putadacara": Sexo tá me fazendo uma falta danada...
Recalcada: Na cama a criatura era um desastre. Totalmente broxante. Era um(a) pateta, sem pegada nenhuma, mal sabia fazer um papai-mamãe! Bem, pelo menos trepei o suficiente com ele(a) a ponto de não ter mais nada o que fazer. Quem vier agora vai ter que se contentar com os restos que EU deixei...

Notem que estar "putodacara" não deixa de ser uma forma "suave" de recalque. Só que o "putodacara" não fica resmungando
incessantemente sobre uma relação terminada. No caso dele, a indignação é mais forte que a frustração, então tudo é uma questão de "tocar o foda-se". No caso do recalque, a ficha pode demorar a cair. Ver o outro numa melhor, e depender disso para torturar-se é deprimente. Ah sim, esqueci de dizer, mas o recalque tem funções masoquistas. Além disso, internamente, as roupas sujas da mágoa, do ódio e da inveja podem demorar tempos para serem bem enxaguadas na lavanderia da aceitação.

E não pense que você aí, não tem uma gota de recalque dentro de si. Isso mesmo, o recalque é algo que existe em todos nós, já dizia nosso, agora mais íntimo, titio Freud. E não adianta fugir disso. Ah, você aceita tudo numa boa, não sente nada quando enfrenta o fim? Aham, você só pode ser um monge budista ou um robô. Ou um banana. Ademais, ao se tratar de um recalcado espere pelos maiores absurdos.

Pois como se não bastasse, o recalcado, além de lidar com sua dor da forma mais negativa possível, ainda arranja tempo para criar situações dignas de um circo mambembe. Já vi pessoas que em nome de seu ressentimento, fizeram coisas tão enfadonhas que deixariam os abobados do Zorra Total com vergonha. Trotes para o(a) ex no meio da madrugada, ameaças de morte, porres homéricos com direito a fiascos em lugares públicos, confissões sexuais em comunidades no Orkut, fotos do tipo "caiu na net" espalhadas por sites pornográficos, etc. Mas o "melhor", são os casos de recalcados que roubam roupas íntimas do(a) ex e levam para um terreiro, a fim de fazerem macumba, pedindo para que "Exu Não-Sei-Das-Quantas" traga a pessoa de volta (ou a destrua de vez!). O detalhe que eu não sei, é se essa cueca ou calcinha, tem que estar limpa ou suja... Bem, depende da tara do Pai de Santo. Há também um bando de malucos, que pegam fios de cabelo do(a) ex para fazerem bonequinhos de vudu. Sim, eu disse isso mesmo: bonequinhos de vudu! (Esse assunto ainda irá me render uma outra crônica no futuro...)

No mais, não tem jeito mesmo. Melhor ficarmos "putosdacara" com a condição humana, e fingirmos que conhecemos bem nosso inconsciente a ponto de nunca nos surpreendermos com ele. Pois se no amor tudo é possível, imaginem o amor recalcado? Deus nos dê forças! E apesar de vermos o seres humanos agindo feito loucos, de maneiras
que nem mesmo titio Freud explica, o verdadeiro mal dessa história toda, na realidade, não é o recalque. É o amor.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

"Putz, fudeu!"

Não adianta, mas no mundo dos relacionamentos, existirá uma maldita hora em que eles serão acometidos por um momento tão útil e necessário quanto uma diarreia infernal no meio da rua. E justamente como essa situação, ainda poderá acontecer o caso da sua relação entrar desesperada num banheiro imundo da vida e não ter um infame pedaço de papel higiênico. Nessas horas inglórias, o destino te sorri com dentes amarelados, olha na tua cara e diz: "só lamento por ti".

Quem passou por isso em uma relação, sabe do que estou falando. Há momentos em nossas vidas amorosas em que nos sentimos tão impotentes e miseráveis com uma determinada situação, que tudo pode ser resumido numa única expressão: "putz, fudeu!".


Quando um relacionamento confrontra um momento "putz, fudeu!", é aí que percebemos as rachaduras no pedestal sobre o qual colocamos aquela pessoa, que até então resumia o que admirávamos e desejávamos em outro alguém. É o ponto divisor de águas em um relacionamento, o momento em que percebemos que a partir dali nada será como antes. Em casos mais premonitórios, dignos de cigana de parque de diversões, é quando visualizamos o começo do fim. É triste, lamentável e profético. É até mesmo bizarro, mas o mundo está cheio de exemplos de relacionamentos que não deram certo por causas ridículas e improváveis. Casamentos de anos acabam por causa de uma margarina mal raspada ou de um tubo de pasta de dentes aberto em cima da pia. Namoros nem chegam a começar, porque a pessoa ri feito uma hiena histérica ou "pq iscrevi dessi jeitinhuuu p falar c miguxus nu msn!!!!!!".


Claro, há casos mais fatuais e drásticos, como aquele olhar abalado do seu(sua) namorado(a) quando viu a(o) ex passar na rua depois de tempos sem se verem. Ou então aquele papinho clássico de que ele(a) precisava de mais espaço na relação, porque desde que Vênus se alinhou com Júpiter e começou a atrapalhar a reprodução do salmão na Escandinávia, às coisas tem andando estranhas entre vocês. Em momentos como esses, tudo o que nos resta é respirar fundo e tomar em nosso orifício retal favorito. E acreditem, às coisas sempre tendem a piorar, a níveis apocalípticos se possível. Contarei a vocês um caso real, digno de um dos maiores "putz, fudeu!" que conheço.


Certa vez, uma amiga minha acabou seu namoro quando descobriu que o namorado fazendeiro mantinha relações sexuais com uma vaca. Não, não é força de expressã
o. Era uma vaca mesmo. Quadrúpede, malhada, com chifres, sineta no pescoço e possivelmente apelidada de "Mimosa". O momento "putz, fudeu!" dessa minha amiga aconteceu no dia em que foi visitar a fazenda do namorado. Até então, ela não tinha grandes reclamações dele, a salvo do excesso de grossura da criatura. Mas tudo bem, ela até curtia um cara mais rude. No dia do acontecido, ela estava dando uma volta e aproveitando o ar campestre, quando resolveu dar uma espiada nas vacas. Para sua surpresa, ao chegar no curral, acabou flagrando o namorado em cima de um banquinho, "montado" em uma vaca. Detalhe que o "cowboy" não entendeu o término da relação. Em sua concepção, tão esclarecida quanto a de um boi, ele não havia feito nada de errado. Sua namorada não tinha motivos para se sentir traída, pois a "Mimosa" não era exatamente uma pessoa, e portanto não se tratava de um caso de adultério. Além disso, "ela que deixasse de ser boba", pois ele era muito apegado àquela vaquinha desde pequeno...

Evidentemente, não é preciso descobrir tendências zoófilas no outro para que um relacionamento caia no brejo do "putz, fudeu!". Basta às vezes, coisas mais simples e sutis, como um olhar vazio, a pressa da outra pessoa em largar os braços num abraço, ou aquele beijo, que de uma hora para outra não se encaixa mais. São aqueles minutos intermináveis de tensão que fica implícito naquele "nada, tô bem" , seguido por um silêncio funebre, uma resposta óbvia após a pergunta: "tem algo de errado? Qual o motivo dessa cara fechada?"

Se o relacionamento sobrevive ou não após um momento "putz, fudeu!" isso é variável, mas as chances são sempre pequenas. E mesmo que ele siga em frente, será como se tivesse sofrido uma amputação e começasse a andar de muletas. Por várias vezes, ele serve como um banho de água fria na relação. Por outras, como um alerta divino mostrando quem é realmente a pessoa pela qual você andava suspirando à toa. Imaginem serem chamados por outro nome no meio da noite? Ou então saber que a pessoa conta seus detalhes sexuais para a própria mãe? Ou pior: imaginem a decepção de descobrir que a pessoa pela qual vocês andavam interessados é fã do Justin Bieber!

E já que aqui estamos num tom de desgraça, por mais persistente que eu seja nas batalhas sentimentais, tenho que ser analítico, fatalista e realista o suficiente para dar-lhes a "boa" notícia: no amor, um momento "putz, fudeu!" é tão inevitável e fatídico quanto pisar num bolo de cocô de cachorro nas calçadas da vida. Mas claro, esses momentos são logo esquecidos quando encontramos um novo relacionamento com a quilometragem zerada. 


Quer dizer, esquecidos até ali.

Essa minha amiga, a que foi traída por uma vaca, parou de beber leite e repudia até um bife no açougue! Entre um passeio numa fazenda e uma visita ao inferno, ela certamente fica com a segunda opção. Quando a digo para deixar esse trauma de lado, ela me fita furiosa e pergunta indignada como eu me sentiria se fosse traído por um hambúrguer. Tenho que concordar com ela. Tem casos que "putz, fudeu!" para sempre.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Encarando o temido FIM

Busquem sua panela de brigadeiro, carreguem na dose do whisky mais ordinário que vocês conhecem, e selecionem aquela música mais melancolicamente cretina que vocês tem nos seus MP3 (vale tudo desde o "pagodão dor de corno" até o "emocore corta pulso"...). O importante é que vocês estejam psicologicamente preparados para nosso incômodo assunto de hoje, que por mais complexo que seja, ainda pode ser resumido em 3 letras: FIM.

Normalmente, quando ele vem a acontecer, nunca estamos prontos o suficiente. Particularmente, acho que essa é a razão pela qual o superestimamos tanto. Afinal, não tem jeito: quando a hora do temido FIM chega, por mais precavidos e prevenidos que estejamos, a coisa sempre aperta. Bah, até parece que estamos falando de morte! Mas é assim que muitos agem quando aquele namoro de anos ou até mesmo o rolo do fim de semana chega no momento do "não quero mais". Viver pode se tornar uma via sacra de lágrimas, desesperos e porquês nunca entendidos ou respondidos. E tudo isso por causa da nossa condição humana de depender de outro ser humano...

Quando chegamos ao fundo do poço de nossa desgraça emocional, o bom senso, a racionalidade e a noção do ridículo combinam um motim e fogem de nossos corpos. Como ratos farreando na ausência do gato, entram em cena então a ralé do nosso recalque, ou seja, a autopiedade, a mágoa, o desespero e a frustração. Diante dessa orgia de sentimentos destrutivos, a dignidade se atira pela janela. E aí, quando ela vai, ficamos a mercê de nos tornarmos zumbis de pijamas amarrotados que se entopem de qualquer coisa à base de chocolate e açúcar. Nesse estado catatônico também estamos na faixa de risco de chorarmos até secarmos. E não é um simples choro. Trata-se de um dilúvio lacrimal, provocado pelas coisas mais absurdas que existem. (Eu conheci uma pessoa que berrava sempre que via uma propaganda do Banco Real, e não era por causa da crise nem de seu saldo negativo...)

Por um lado, isso até é compreensível. Elaborar um FIM não é uma coisa muito fácil mesmo. Ainda mais porque cremos que a suposta resposta para nossa catástrofe sentimental não está em nós mesmo, e sim na criatura que nos deu um fora ou pontuou o fim da relação. E apesar de não ser muito prático, sou cara de pau o suficiente para reconhecer que em certos casos, é deplorável ver as pessoas fazendo tempestades em copos de lágrimas por causa de uma OUTRA pessoa, que certamente está bem melhor do que elas. Aliás, quem normalmente termina a relação sempre fica numa situação mais cômoda e confortável. Fato. (Mas isso por enquanto é assunto para outra hora...)

Tudo bem, eu sei que por várias vezes a fossa é inevitável e corações quebrados nem Super Bonder cola, mas tudo tem um limite. Até a depressão pós-FIM tem que ter um FIM! Ainda mais quando se está vivo o suficiente para termos a bendita honra de arriscar nossos surrados sentimentos em uma nova relação, e acreditarmos que "dessa vez" tudo poderá ser diferente. Eu sempre acredito nisso, mas também creio que o Brasil é o país do futuro e que os sacos de Ruffles tem mais batatinhas do que ar dentro deles.

E por mais que a desilusão típica do FIM seja uma das piores coisas a se encarar, não adianta fazer manha: o FIM é o destino de todas às coisas na vida mesmo. Então porque seria diferente com relacionamentos amorosos? O que nos resta é enfrentar, aceitar, e principalmente suportar o FIM com todas nossas forças possíveis (mas com todas mesmo, a ponto de vocês as retirarem do fundo de seus orifícios retais com um pauzinho de picolé se possível!).

Acreditem, esse caminho ainda é mais decente e resoluto do que se tornar um zumbi de camiseta velha, comendo brigadeiro de panela e assistindo Sessão da Tarde. E não tem outro jeito: o sofrimento não é opcional quando se trata de relacionamentos. Por isso levantem suas cabeças (se for o caso as cubram com um saco de papel igual ao meu) e aprendam pelo cúmulo das auto ajudas: "o fim do mundo não é o fim do mundo"!

Então, quando o FIM chegar sejam corajosos. Ele é inevitável, mas pode ser contornado e abrandado com o tempo, experiência e força de vontade (muita por sinal). Sejam otimistas. Lembrem-se que o FIM pressupõe o começo de algo novo, por isso tenham sempre esperanças nas coisas vindouras! Enfim, após esse blá-blá-blá típico de livro auto motivacional do Dr. Lair Ribeiro, façam um favor a si mesmos e parem de ser as coisas mais deprimentes a se deitarem em seus sofás numa tarde cinzenta de sábado. Ah, e também evitem a tentação de encher o saco dos outros (isso também é assunto para outra conversa) e de ouvir Fresno e Exaltasamba até enjoar.

Agora, como ninguém é de ferro, se quiserem sair para beber e afogar às mágoas, não se esqueçam de me convidar! Até mesmo porque quando se vive épocas de decadência sentimental e autopiedade, nada melhor do que ver o FIM das garrafas de vodka barata que a vida tem a nos oferecer...


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para início de conversa: "por que me chamo Sr. Apêndice?"

Para os possíveis interessados, curiosos ou seres que pensam "putz, o que estou fazendo aqui?", acho melhor explicar de uma vez o porquê do meu peculiar nome. Ou melhor, do meu fardo. Como imaginam, minha sina tem a ver com aquela coisa tubular, similar a uma minhoca e que supostamente não serve para nada. Não, não pensem que estou falando de outra parte do corpo! Me refiro mesmo ao famigerado e desdenhado apêndice. (Se bem que a outra parte... não, não, melhor não comentar!)

Sem rodeios ou lições de anatomia, convém dizer que o apêndice não serve para nada mesmo, a não ser ficar fazendo figuração no sistema digestivo nos livros de biologia. Claro, alguns médicos CDFs poderão te dizer que esse orgão mixuruca até dá uma maõzinha em nosso sistema imunológico, e te enrolar com outras de suas ultilidades tão expressivas quanto uma aspirina. No entanto, esses mesmos médicos não pensarão duas vezes em arrancá-lo na hora em que ele der problemas e virar uma apendicite. Depois de uma cirurgia, cada vez mais simples e insignificante, eles te mandam para casa e dizem que sua vida seguirá normalmente sem o bendito apêndice. Talvez a única ressalva é que você fique 10 dias no máximo sem fazer sexo. E só. No mais é assim mesmo: "tchau apêndice, não precisamos mais de você!"

Pensando no meu azar com relacionamentos amorosos, vi que eu e o apêndice somos parecidos. Ambos dispensáveis, teoricamente sem grandes importâncias para a vida das pessoas, e cirurgicamente simples de sermos removidos. Assim como um apêndice, várias vezes meus relacionamentos viraram apendicite, ou seja, aquele estado em que o amor é mais dor e incomodo do que propriamente um sentimento de completude e paz de espírito. Nessa hora, tão temida quanto uma intervenção cirúrgica, o relacionamento chega naquele impasse que se resume em uma interjeição: "ai!" É... esse é o preço que se paga, cedo ou tarde, por se dizer "eu te amo" e dedicar dias de sua vida às incertezas dos relacionamentos amorosos.

Há aqueles que ainda resolvem dar mais uma chance ao negócio, até para não dizerem que não tentaram. Matam a questão no peito, engolem aquela coisa rançosa que é o amor sofrido à seco, e sentam esperando um milagre que salve aquela relação. Porém, na maioria dos casos, tudo é resolvido com o bom e velho "não dá mais, acabou, fim". (Tem também aqueles que acabam mandando às pessoas tomarem em seu orifício retal favorito, mas isso não vem ao caso agora...)

De qualquer jeito, eu nunca sou aquele que resolve às coisas de um jeito tão prático. Sempre acredito na salvação dos relacionamentos falidos, assim como acredito na paz mundial e que os Reality Shows não são combinados. Em resposta às minhas nobres crenças, acabo sempre tomando em meu orifício retal favorito e sofro com a dor da rejeição e desilusão amorosa, para qual ainda não se descobriu remédio, cirurgia ou tratamento. Daí, só me resta enfiar um saco de papel na cara e me acostumar com essa tal dor (que nunca vai embora, apenas adormece). Quando já convivo bem com a bandida, volto mais uma vez ao jogo e continuo apostando nessa história de relacionamentos amorosos. Fazer o quê? Se amar é sofrer, eu só posso ser masoquista...

Porém, essa história de apêndice até tem um fundamento interessante: mesmo que ele seja removido, e até mesmo esquecido por quem a perdeu, uma cicatriz e um espaço vazio marcarão para sempre essa pessoa, justamente como um amor que se acabou. Nada nessa vida é de graça, nem mesmo colocar um fim em algo. E assim como um apêndice, o coração pode inflamar e doer tanto quanto a pior das apendicites. Pelo menos função punitiva o apêndice tem. Isso até serve como consolo. Afinal, sou o Sr. Apêndice e não o Sr. "outra parte do corpo que não convém mencionar"...