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segunda-feira, 10 de março de 2014

Desapegos Desastrosos


Esses dias, resolvi obedecer a um antigo psicanalista e cumprir a tal “Lei do Desapego”. Acho que só não fiz isso antes de raiva. Do psicanalista, claro, pois o cretino me cobrou uma fortuna por conselhos que qualquer um desses programinhas que passa de tarde nas TVs Records da vida, ou cantor sertanejo me diriam de graça. Ok, passando o momento de negação, vamos então aos “desapegos”.

Partindo do princípio que a necessidade do desapego advém de uma prática - provavelmente chupada do Feng Shui ou qualquer outra coisa que os orientais apregoam – que condiz que devemos reciclar nossas energias através da eliminação de objetos materiais que não usamos e estão estagnando um possível progresso em nossas vidas, achei válida a tentativa. Dizem os conhecedores, que ao acumularmos tantas coisas inúteis, ficamos amarrados energeticamente a elas, dependentes de sentimentos passados que não nos fazem mais bem. Ou seja, guardar aquele papel de bala que o fulaninho te deu, só porque “foi a primeira bala que fulaninho te deu”, além de denotar que você tem algum instinto de rato ou guaxinim, significa que você não quer largar a energia que te ligava ao fulaninho, sendo que nem ele ou a marca da bala existem mais em sua vida.

Eu realmente não tenho moral para falar dos ratos ou guaxinins, animais que naturalmente acumulam tudo quanto é porcaria em seus ninhos. Sou um “apegado” profissional. Guardo tantas tralhas em minha vida e aposentos que fariam um bazar turco passar vergonha. Todos registros materiais de minhas decepções amorosas e frustrações estão  por aí, espalhados por gavetas e caixas de fundo de armário. Sou uma tragédia pessoal numa montanha de quinquilharias.

Disposto a dar um fim nisso, liguei para a Leidydai. Leidydai é uma moça que trabalha como diarista e faxineira, e de vez em quando me salva da situação do meu apartamento, de tão sujo e desorganizado, se tornar um organismo vivo simbiótico e me devorar. Como acabou o carnaval, imaginei que a Leidydai – que segundo ela, recebeu esse nome da mãe em homenagem àquela princesa de Mônaco (!) – estivesse precisando de uma grana extra para pagar suas eternas dívidas em paetês e fantasias que ela contrai todo fevereiro. Ah sim, Leidydai é passista de pelo menos trinta Escolas de Samba que existem por aí, e diz que só fará faxinas até virar a próxima Globeleza ou rainha da bateria do Salgueiro ou da Mangueira - sei lá, uma dessas.

A missão da Leidydai dessa vez era mesmo digna de enredo de Escola de Samba: me ajudar a dar fim nas minhas quinquilharias passadas, dignas de centenas de histórias que não deveriam fazer mais sentido na minha vida.  E a cada gaveta aberta, a cada caixa revelada, a cada armário desbravado, lembranças voavam agitadas pelo meu apartamento como morcegos desnorteados. Mas na realidade, confrontar seu passado e estar disposto a jogá-lo fora, te dá uma sensação única de poder. Talvez a história não ganhe uma nova ordem ou um final melhor, mas certamente, você enfim sente-se livre. Livre de mágoas tolas e arrependimentos desnecessários. Livre de algo que já se foi. Livre até mesmo de um pedaço de você mesmo.

De bilhetes, cartas e fotos, até detalhes mais prosaicos de uma relação, como tickets de cinema e os absurdos papéis de bala, tudo estava lá, lembrando-me de pessoas, dias e horas com essas pessoas, alegrias e tristezas com essas pessoas. Anos e anos em vão, entupindo minhas gavetas. E eu, ironicamente, reclamava de espaço para guardar minhas cuecas e meias.

- O que o senhor vai fazer como esses aqui? – perguntou-me Leidydai, assim que encontrou um saco plástico cheio de ursos de pelúcia, após tossir poeira e ácaros. 

Ursinhos de pelúcia! Cacete, existem mulheres que presenteiam seus namorados com ursinhos de pelúcia! Ok, sem discussões de gênero aqui, mas não existe maneira mais bizarra de infantilizar o homem da relação do que dar-lhe um urso, coelho, tatu-bola, lagarto, ornitorrinco, e sei lá que outra espécie da fauna, de pelúcia. Quem sabe uma mamadeira e uma chupeta da próxima vez? Eu tive uma namorada que, se o IBAMA controlasse animais de brinquedo, ela estaria presa há séculos. Realmente, é impossível um relacionamento ir à diante, pressupondo que esses exigem maturidade, enquanto o casal ficar trocando criaturinhas fofas de pelúcia! Qual seria a ideia por trás disso? Arrastar a infância para dentro da alcova do casal? Não, não, perturbador.

- Leidydai, jogue esse zoológico de pelúcia fora – ordenei.

- Sr. Apêndice, posso ficar com eles e dar aos meus filhos? – questionou-me a faxineira.

- Você têm filhos, Leidydai?

- Ainda não, mas um dia eu vou ter. – respondeu-me Leidydai, convicta de uma lógica um tanto própria.

Dei de ombros e assenti que sim, desde que aqueles bichos ficassem longe de mim.

A sessão de cartas e bilhetes foi outra decadência existencial que sucumbiu sobre mim. É que eu sou de uma geração pré-Facebook, Whatsapp e sei lá mais quais apps que estão na moda. Eu era de uma época em que as pessoas utilizavam papel e caneta para registrar a escrita. Os namoros eram assim também, sentimentos verbais eram marcados com traços de esferográficas sobre calhamaços de celulose.

Quando eu era criança, ganhar um bilhetinho da colega de aula dizendo que “você era bonito" e que "ela gostava de você”, valia tanto quanto uma medalha de guerra. Ainda mais porque eu nunca ganhei um desses. Mas acho que por casos como esses, se perpetuou um ritual nos relacionamentos de enviar palavras escritas, pois talvez a validade material tivesse mil vezes mais poder que a validade sentimental, etérea e intangível. Você não pode segurar um “eu te amo”, mas pode ir ao bilhete de folha de caderno arrancada que diz o mesmo, quantas vezes você quiser.  O problema, que ao final inevitável das relações, fica toda uma Biblioteca de Alexandria perdida na sua vida, esperando um arqueólogo corajoso a desbravá-la. Chega a ser é cômico: quantas vezes você não abre “aquela” caixa, cheia de lembranças de um relacionamento passado, só porque tem medo do que possa sentir? Muitos até colocam um aviso de “não abra” sobre a caixa, evitando o confronto com aquela Pandora sentimental. Por isso, ponto para a teoria do desapego: jogue tudo fora, queime e não se incomode mais com o monstro de dentro do armário, ou de baixo da cama, ou sei lá mais onde você guarda essas relíquias do relacionamento morto.

Com as fotos o caminho foi quase o mesmo. Repito o discurso de matusalém, mas eu sou de uma época ancestral ao Instagram, de uma era em que as pessoas tiravam fotos, levavam seus rolinhos de 12 a 36 poses para revelar, e depois as resgatavam, impressas em papel filme. E como momentos cristalizados, congeladas em um tempo-espaço em que parecemos felizes para sempre, lá elas estavam, fotos e mais fotos de namoradas antigas que agora moravam escondidas em minhas gavetas. Em era do .jpg, as milhares de fotos que tiramos ficam vagando em redes sociais ou perdidas em alguma pasta do HD de um computador. O acesso não é mais o mesmo. As provocações do destino não são mais tão ferozes. E além do mais, o botão delete está ali, sempre de prontidão. E se ele ainda não for eficaz, nada como um bom vírus para destruir sua Placa Mãe e enviar seu PC para o lixo, junto com as memórias digitalizadas.

O engraçado é que eu pensei que rever as fotos antigas seria algo mais doloroso. Na verdade, ao me rever em minhas fotos do passado, acabei mudando minha ótica sobre quem eu era naquela época. Ao ver minha cara de moleque ridículo há mais de uma década, tive que assumir: “agora eu sei porque ela me chifrou”. Ter um olhar despido de paixão ou raiva me deu a lucidez de que essas antigas namoradas nunca foram tudo isso que eu imaginava até os dias de hoje – até mesmo porque muitas já estão gordas ou velhas. Ah, o tempo - ele pode ser bem reconfortante, ainda mais quando ele passa. De posse a inúmeras fotografias, a ordem foi apenas uma a Leidydai:

- Queime-as.

Leidydai sorriu para mim com uma cara de cumplicidade e disse:

- Ahhhh, eu sabia que o senhor ia na mesma Mãe-de-Santo que eu...

O desapego seguiu, num gosto acre-doce de despedidas. Foram alguns CDs, alguns livros, roupas, lembranças tolas e os mais variados eteceteras. No final da jornada, para minha surpresa, tanta tralha não se resumia em um mundo sentimental que eu achei que havia construído. Acho que é porque, no processo de confrontação com o passado, eu percebi o quanto tais energias eram realmente desnecessárias. Ficou claro, que as lembranças não digeridas pela alma ganham proporções maiores do que elas realmente são. Livrei-me mais do que quinquilharias – fui liberto de amarras existenciais insensatas e, até mesmo, ridículas. Eu não precisava de coragem para mexer naquelas velhas caixas e gavetas - precisava mesmo era de vergonha na cara.

Fiquei um tempo olhando para o novo nada que se apoderou das minhas gavetas e armários, pensando por um breve momento se minhas ex-namoradas tinham se livrado de tudo que dei a elas, mas fui – graças aos céus – interrompido de meu estado introspectivo por uma exclamação de Leidydai:

- Sr. Apêndice, encontrei uma caixa aqui com umas pedrinhas brilhantes!

Pedrinhas brilhantes? Será que Leidydai achou improváveis pedras preciosas de um parente pirata que eu nunca tive? Fui conferir, e então, meu coração encheu-se de nostalgia quase me levando as lágrimas: eram meus Geloucos da Coca-Cola! Deus do céu! Quantos litros de refrigerante eu tomei para completar a coleção? Não sei como não morri de tanto sódio e açúcar! Há anos estavam esquecidos no fundo de meu armário, e o pior, do limiar da minha memória. Fiquei num transe infantil, até ser novamente interrompido por Leidydai:

- Sr. Apêndice, e aí, jogo eles fora junto com o resto de coisas do desapego?

- Não, Leidydai, guarde meus Geloucos de volta!


Afinal, tudo tem um limite. Até os desapegos. 


segunda-feira, 4 de março de 2013

Tudo de novo


Acabou mais um ano. Começou outro. Tudo de novo. 



 - Ei, mas como assim? É março! Já faz dois meses que o ano começou?!!! Está atrasado – para variar – Sr. Apêndice!

Não. O ano DE VERDADE começa agora. É agora que as doces ilusões que nos foram concedidas enquanto estávamos exilados da rotina – mesmo dentro da rotina, diga-se de passagem – acabam. Falando em um lenga-lenga menos filosófico: acabaram as férias, foi-se o verão. Chegaram as cretinas águas de março (perdoe-me, Tom Jobim).

Repetindo: acabou. Vamos ao tudo de novo. Seja bem-vindo - com um sorriso amarelo e cheio de hipocrisia – março; apresente-nos seu amigo ano novo, já que seus irmãos janeiro e fevereiro falharam em tal introdução. Seja bem-vinda realidade – acordar cedo, trabalhar, estudar, fazer tudo em um processo mecânico e repetitivo até dezembro, o mês super-herói que vem para nos resgatar do cotidiano sufocante.
(Aliás, gostaria de manifestar aqui minha antipatia ao mês de março. Eu odeio março! Detesto março tanto quanto detesto domingos. E se pararmos para pensar, se um ano fosse uma semana, março seria o domingo.)

Mas acho que o “tudo de novo” que me angustia no momento não é a rotina artificial que tentamos sem sucesso evitar ou adiar - já que o mundo amanhece e anoitece desde os primórdios da existência. Minha estreiteza na realidade é uma alegoria para tudo que a vida – em especial, ao que tange os sentimentos – nos reserva. Querendo ou não, todo recomeço nos evoca novas esperanças.

Caso não tenham entendido, falo daqueles montes e montes de promessas e coisas que precisam acontecer no ano que começa para haver sentido em um novo começo. Amores.  Esperanças. Felicidades. Inícios. Fins. Sentimentos. Sentidos.  Senão, para que todo aquele porre de champagne na madrugada do dia 1º de janeiro? Mais uma ressaca gratuita? (E enfatizo mais uma vez: o reveillon deveria ser em março!)

Agora nada mais que rime com "fim" faz sentido. O mantra agora é “começo”, “início”, “recomeço”, “vida nova”, “volta às aulas”, “volta à rotina”. Ora, nem o mundo que ia acabar, – conforme nos encheram o saco durante 2012 inteiro – acabou. O tal e prometido fim do mundo não veio, o que não é algo que se constitui propriamente em um problema, pois daqui a pouco a Discovery Chanel já vai arranjar uma maneira de acabar com ele de novo (terremotos, invasões alienígenas, profecias Maias, apocalipse zumbi, Gustavo Lima e você – qual vai ser a próxima bomba fica a critério do próximo Globo Repórter).  Então apocalípticos de plantão, relaxem. Daqui a pouco alguém descobre mais uma profecia escondida do Nostradamus e o mundo já acaba de novo.

O carnaval, nossos festejos da carne, época de expurgar nossos demônios anuais com porres e putaria mal chegou e já se foi. Aqueles dias infernais (nos dois sentidos!) de batucada, axé, marchinhas e samba nos ludibriaram como sempre, nos fazendo quase acreditar que não haveria realidade após a quarta-feira de cinzas. Agora só nos resta esperar o próximo feriado para nos recuperarmos ainda do estrago que o carnaval nos fez (nossos fígados, neurônios, corações e finanças que o digam).

De qualquer forma, o binômio começo/fim nos visita mais uma vez, com o intuito de nos assombrar e esperançar que no final do túnel há sempre a esperançosa luz para nos acenar que “calma, tudo há de dar certo ainda, mesmo que nunca tenha dado”. É como se fosse um tapinha nas costas do destino, nos dizendo “vamos lá, você ainda tem mais uma chance”. E assim rolamos os dados nas inevitabilidades do caos, nos agarramos nas crinas da sina em mais uma galopada da vida. Com o cronômetro zerado, percebemos que mais um ano vindouro - na realidade,  apenas mais um dia que vem – é mais uma aposta desesperada na loteria da felicidade eterna. Nesse ponto, a esperança, mais recauchutada que pneu de beira de estrada, se torna uma instituição, uma crença necessária para que o mundo não vire o apocalipse ou fim do mundo que mencionávamos antes.

Precisamos acreditar. Dependemos disso. Se não são começos, pelo amor de Deus, que sejam recomeços! O fim, de tudo - mundo, corações e ilusões - vai ser sempre aquela sombra a nos perseguir. Faz parte da nossa condição cíclica, da vida dando lugar a morte, para que dê lugar a vida de novo. Vem amores, vão paixões. Vem decepções, vão ilusões. Vem tentações, vão traições. Vem vida, vai vida. É assim.   Fôlego, vamos lá. Até mesmo porque o tal sentido que procuramos nos sites esotéricos é esse. Então todos aqueles sorrisos bobos, lágrimas ardidas, taquicardias de ânsia e raiva e as tais mariposas no estômago - ou seriam borboletas? – e a velha ressaca de viver intensamente, ainda vai ter que valer a pena. Façamos isso. Caso contrário, vamos escrever uma letra de pagode, porque assunto e inspiração não nos falta (te cuida, Raça Negra!).

Ok, mas sejamos sinceros: haja saco. Sim... saco são esses recomeços que terminam sempre! E na boa, às vezes a culpa nem é nossa por crermos nas possibilidades vindouras. Faz parte de nossa essência acreditar e valorizar tudo que é novo. Sejamos francos: se usamos uma roupa nova para uma ocasião especial, não seria diferente em usarmos esperanças novas para um novo começo de ano. Tampouco, não é nada estranho acreditarmos que uma nova paixão é uma nova chance que a vida nos dá para sermos felizes nesse quesito.

Expectativas e ilusões são entorpecentes difíceis de se dizer “não”. Acreditamos e renovamos nossas esperanças tantas vezes com uma fé tão própria de nossa condição humana, tão desprovida de quaisquer coisas negativas, que na boa, dá vontade de mandar a vida tomar no rabo por não nos dar uma aliviada! Confiamos no mesmo passo em que somos desiludidos, tanto que acho que a vida deveria nos pedir perdão de vez em quando, só para inverter a ordem das coisas.

Por isso aceitaremos a rotina de novo. Por isso vamos sorrir e suspirar para o cotidiano que vai nos arrastar impiedosamente durante todo o ano que acabou de começar, mas que por ora ainda está rançoso como uma grande segunda-feira. Paciência. Daqui a pouco já estaremos tão robotizados dentro dele, que mal perceberemos que ele tinha começado algumas horas atrás. E por que definitivamente não viramos as máquinas, numa perspectiva Matrix de ser? Porque teremos toda aquela jornada sentimental, de ilusões e desilusões, risos e choros, inícios e fins para nos distrairmos entre um domingo e outro. É isso que nos torna humanos, que nos faz acordar toda segunda-feira de manhã às 6 horas em ponto, esteja ele nublado ou não. Nós não podemos parar, para que a vida também não pare.

Então, seguindo e quebrando o praxe dos reveillons: feliz ano novo. Feliz março. Feliz segunda-feira. Que tudo se realize. Um brinde, sobretudo à vida, que não para – graças a Deus, pois daqui a pouco é dezembro de novo... 


terça-feira, 31 de maio de 2011

A Era da Inocência

Os relacionamentos costumam mudar consideravelmente nossa visão de mundo, mas só quando eles jogam com nossa inocência e ingenuidade é que realmente começamos a entendê-los.


Três coisas que eu nunca deveria saber os verdadeiros e reais funcionamentos: democracia, restaurantes chineses e relacionamentos. O mundo parecia ser mais mágico quando eu não tinha o conhecimento de certas coisas que somente a experiência e a vivência me trouxeram. Vejam minha eterna cruzada com o amor; ele costumava ser doce como uma torta de chocolate quando ficava exposto na vitrine da confeitaria da vida. Hoje ele parece mais um pão integral macrobiótico, duro e quadrado como um tijolo. Como de um minuto para o outro eu deixei de comer torta de chocolate para comer um tijolo disfarçado de pão integral? Não sei, mas talvez a vida inteira tenha sido o tal tijolo integral. Eu que acreditava que ele tinha gosto de bolo de chocolate...

Sentimentos têm mesmo sua parcela de ingenuidade, e consequentemente, de infantilidade. Ora, o que é o platônico amor eterno para nós, senão uma espécie de Papai Noel para uma criança de 5 anos? Eu, por exemplo, achava que Papai Noel realmente existia. Quando me contaram que tudo era uma farsa, admito que demorei para assimilar. E nem digo que o decepcionante foi descobrir que Papai Noel era na realidade o meu tio com um travesseiro debaixo da roupa e de barba de algodão inebriada de champagne derramada. Não. Minhas desilusões com a crença do bom velhinho vieram a partir do momento em que descobri o "faça suas compras de Natal e pague só a primeira parcela em março, tudo sem juros no cartão!". Hoje, "ho-ho-ho" eu faço quando chegam às faturas do Mastercard.

Ok, mas deixando a indignação com o espírito do capitalismo de lado, a verdade é que os tempos se tornam duros a partir do momento em que a inocência é despejada a chutes do apartamento de ilusões pela síndica da realidade. Volto a dizer que os sentimentos, ainda mais quando começamos a desbravá-los, nos remetem a uma espécie de mundo "infantilóide", típico da TV Cultura com seus programas educativos
a la Castelo Rá-Tim-Bum. Nas questões amorosas e nos relacionamentos rola mesmo uma ingenuidade forçada, assim como a interpretação escrachada dos atores desses programas (quem não sentia vergonha alheia quando via aqueles babacas vestidos de passarinhos no "Passarinho que som é esse?").

Não que isso seja tão ruim assim, afinal, dizem que existe uma criança interior em todos nós. O problema é que essa pirralha insiste em se manifestar em momentos cruciais de nossas vidas, principalmente em nossos relacionamentos e em nas nossas escolhas políticas. Não sei se as manifestações dessa criança têm a ver com marmanjos colecionando figurinhas do Campeonato Brasileiro, ou com quarentonas comprando Barbies no Mercado Livre, alegando que são raras e de coleção. No entanto, imagino que todo o ranho e cocô nas calças que essa criança interior faz se transfere para nossa área sentimental. Ora, só isso pode explicar a quantidade de sujeira que fazemos em nossa vida amorosa, especialmente quando tomamos atitudes baseadas em nossa própria inocência dos fatos. Parecemos verdadeiras crianças com diarreia e sem a mãe para ir nos limpar.

Pois, seja na vida, seja no amor, há coisas que são como são e nunca ninguém as questiona. A gente só acredita e se resume a nossa insignificância. "Verdades universais" e "regras invisíveis e intransponíveis" simplesmente nos regem e nos comandam sem que nos realmente saibamos de onde elas surgiram ou quem foi o cretino que as inventou. Engolimos tantos "porque sim!" e balançamos sempre a cabeça, como crianças assustadas com o Bicho Papão que pode nos pegar caso façamos alguma bagunça.
Ingenuidade é fogo, mas quem vive dela nunca sente as queimaduras. É como ter todos os dentes permanentes, mas guardar um que eventualmente caia debaixo do travesseiro à espera da Fada do Dente. (Que por sinal, é uma baita mão de vaca! A muquirana só me deixava umas moedinhas que mal dava para comprar bala...)

Evidentemente, há casos e casos sobre inocência e ingenuidade. Nem todo mundo cai duas vezes no mesmo truque do "estou doente em casa", enquanto na realidade a criatura está na farra. Do mesmo jeito, existem ingênuos de plantão que vivem a chafurdar no engodo do "eu te amo para sempre" ou "você é a única pessoa do mundo para mim". Mas isso fica de acordo com a espessura da garganta ou com os limites da paciência para engolir qualquer bobagem.

Porém, mesmo assim, mesmo após levarmos centenas de cacetadas na cabeça, ainda persistimos em recorrer aos mesmos erros, todos baseados numa ingenuidade mais retornável que garrafa de vidro de Coca-Cola de 1 litro. E não adianta a história de que o mundo te endureceu após você ter perdido a inocência (sem alusões a virgindade, por favor...), e nem venham com o repeteco do "não caio mais nessa". Uma hora sempre falhamos em nosso próprio discurso.

É aquela coisa de apostar sempre na loteria, mesmo sabendo que você tem 99,7% de chances de não ganhar. Mas ah, vai que um dia você acerte e ganhe toda aquela bolada acumulada sozinho? Aproveite o otimismo que a Dona Ingenuidade te proporciona, compre um bilhete na loteria, coloque os números do Lost e boa sorte! Não, sejamos pé no chão. Melhor mesmo é fazer campanha para aquele candidato a deputado federal que te prometeu uma vaga de assessor e um salário de R$5,000 caso ele fosse eleito. Se ele não prometeu o mesmo para mais uma centena de gente? Claro que não, foi só para você. Não é mesmo, Dona Ingenuidade?

Ir contra nossas crenças, especialmente contra coisas que nos fazem bem, como o amor, é algo extremamente complicado. Atingir a aceitação da realidade dos fatos é uma tarefa de elevação e transcendência tão complicada que até um monge tibetano arrega. Quando caímos nos questionamentos cíclicos e sem respostas do tipo "por que meu relacionamento não deu certo?" ou "o que eu poderia ter feito de diferente?", ficamos novamente naquele esquema de criança na fase do "por quê?": "por que o céu é azul?", "por que Papai do Céu levou o Totó de nós?", por que a mamãe se tranca no quarto com o vizinho sempre que você vai trabalhar papai?".

Triste, mas nossa inocência e ingenuidade não nos preparam para evitar os golpes duros da vida, e nesse caso, o amor é faixa preta e campeão de vale-tudo. Porém, como só quem levou um soco na boca é que sabe quanto custa um implante dentário, vale ficar sempre alerta. Já dizia o pensador (pouco conhecido pela maioria, mas vai um momento de erudição gratuito para vocês) Roland Barthes: "sempre duvide do que é óbvio". É...

Sim, eu sei. Tantas desilusões provindas de tantos relacionamentos me deixaram um pouco paranoico. Mas faria diferença se eu não fosse?
Com ou sem ingenuidade, a vida continua a não nos dar certeza de nada. Ninguém pode nos dar nem 10 nem 100% de certeza de que tudo vai ser sempre perfeito como foi na lua de mel. Não, não há garantias de amor eterno, assim como ninguém muda suas atitudes românticas depois de uma conversa profunda e sensível. E por aí a coisa vai. Ou melhor, não vai.

Uma vez em uma conversa de MSN da vida me chamaram de recalcado por eu sustentar tais afirmações. Desculpem-me por ser emissário de notícias tão trágicas, mas os relacionamentos na vida real não são iguais aos dos filmes, novelas e livros do tipo "Querido John" ou "A Última Música". Foi mal aí, mas a vida não é assim. E mesmo que fosse, duvido que alguém aguentaria viver sempre daquele jeito, com toda aquela baboseira e melação, várias e várias vezes repetidas. Querem "um amor para recordar" todo santo dia? Vocês
realmente tem certeza disso? Então, boa sorte. E comprem bastante Engov e sal de fruta. (E recalcado é a PQP!)

Descobrir quais são os caminhos e as desembocaduras do fluxo dos relacionamentos pode não ser a coisa mais divertida do mundo, mas isso faz parte se queremos saber das grandes respostas das perguntas que eternamente nos urgem. Afinal, nem toda diversão é sempre diversão, sempre temos variáveis no nosso caminho. Nem todo sexo é bom, nem toda pizza tem queijo catupiry e nem todo parque de diversões tem montanhas-russas. É crianças, a realidade é outro departamento...

Falando em montanhas-russas, conhecer o funcionamento dos relacionamentos é como ir dar uma volta em uma. Assim como nos relacionamentos, elas nos divertem, nos assustam, são cheias de voltas, emoções, altos e baixos, náuseas, adrenalina e dos famosos frios na barriga. Quando chegamos ao final do percurso, ou vomitamos ou queremos ir de novo. E para nossa surpresa, se você anda demais na mesma montanha-russa, mesmo que seja uma daquelas gigantescas da Disneyworld, a emoção não será sempre a mesma. Os frios na barriga e até mesmo o coração na boca não são mais os mesmos depois de você ter decorado todas as curvas e
loops. Infelizmente, nos relacionamentos também é assim.

Mas você pode ainda conservar a ingenuidade que resta na sua criança interior e sair por aí procurando por outras montanhas-russas. Afinal, o que não falta no mundo são parques de diversão, e todos sempre têm a "a maior montanha-russa do mundo". Vão lá, levem suas crianças para passear. E não adianta, ninguém consegue conter uma criança, mesmo que seja a tal interior. Bem, todos sabem como age uma criança chata numa loja de brinquedos; quando ela quer algo e coloca isso na cabeça, a fedelha enche o saco, grita, chora e esperneia até ganhar. (Mas nada como umas palmadas para acalmar a peste...) Por isso pensem bem antes de darem vazão a inocente criança de dentro de vocês no mundo dos relacionamentos. Pois, conforme alguém me disse esses tempos, "quem dorme com uma criança, acorda mijado..."

terça-feira, 5 de abril de 2011

As regras do jogo

No jogo do amor, nós fazemos as regras ou elas nos fazem?



Rolem os dados, façam suas apostas. Ok, o papo pode começar com um clima de Las Vegas, mas é o mesmo lengalenga de sempre, ou seja, relacionamentos e suas desgraças. Aliás, falar de jogatina e de relacionamentos no fundo é tudo a mesma coisa, pois o assunto é repl
eto de expectativas, desilusões, perdas eternas, ganhos esporádicos e canalhices casuais. Confesso a vocês que pensando no assunto, adoraria estar escrevendo sobre strip pôquer, mas como tradição, vamos descambar mesmo em mais uma rodada do inconstante e caótico jogo do amor.

Falar em jogo, querendo ou não, sempre vai nos remeter a assuntos como diversão, competição, regras, vícios, perdas e ganhos, sorte e azar. Ironicamente, falar em relacionamentos não vai muito longe disso. Porém, vale lembrar que começar um relacionamento nem sempre é o mesmo que sentar numa mesa de jogo e esperar que a boa sorte nos ajude em nossos lances. (Até mesmo porque, quando se tratava de Banco Imobiliário eu roubava dinheiro do banco pra caralho!)

Relacionamentos não têm regras, mas essa é uma verdade refutada por todos aqueles que entram num. Na realidade, acho bastante interessante a maneira como muitas criaturas tratam o amor e seus desatinos como jogos estratégicos ou de azar. Por essa ótica, fica fácil pensar que várias vezes apostamos e perdemos o coração na roleta da vida, ou então que as coisas não deram certo devido a uma cartada inesperada do destino. (Ou por causa daquele Coringa FDP que apareceu naquela trinca de última hora...)

Alguém um dia deve ter dito (e se não disse, eu me aproprio da frase agora mesmo!) que no jogo do amor não há vencedores, só perdedores. Sei de histórias de cassinos que reservam uma sala especial com um revólver carregado, para o caso de alguém que tenha perdido tudo decida se matar ao invés de sucumbir em dívidas. Não que nos relacionamentos as coisas sejam lá muito diferentes, pois as pessoas costumam perder muito mais do que os seus sentimentos apostados no jogo do "eu te amo".

Mesmo assim, todo mundo vive jogando esse jogo que não tem regras, mas que no final das contas nem é preciso, pois gostamos mesmo é de inventá-las e complicá-las. Aliás, eu que sempre defendi a tese de que os relacionamentos são complicados, me permito a uma contradição: os relacionamentos talvez sejam simples, complicados mesmo são os seres que se envolvem neles. Querem entender meu raciocínio pelo viés da jogatina?

Pensem em um baralho (desses normais, 52 cartas de 4 naipes diferentes). Ok, agora pensem em quantos tipos de jogos você pode jogar com apenas esse único baralho? Centenas. Sim, eu disse CENTENAS. Para se jogar CENTENAS de tipos de jogos, tudo que você precisa é de UM único baralho, desses que você compra em qualquer lojinha ou bazar de esquina. Ora, a vida é assim: ninguém fica só no Pif-Paf, Dorminhoco, Buraco e Paciência para sempre. Pensando bem, no "Dorminhoco", "Buraco" e na "Paciência" muita gente fica por longos tempos... (Ai, que trocadilho podre! Morra, Sr. Apêndice, morra...). De qualquer maneira, haja desocupação nesse mundo para se inventar tantas regras e métodos para que tudo acabe no costumeiro "você perdeu, eu ganhei". (Sempre me pergunto por que as pessoas inventam maneiras de complicar tanto às coisas ao invés de apenas simplificá-las! Eu, por exemplo, daria o prêmio Nobel àquele ser que inventasse um pão de cachorro-quente que não fizesse a salsicha escapar enquanto tentamos mordê-la...)

Evidentemente, em certos jogos vencer ou perder não é o principal, como nos falam os técnicos frouxos e pseudo-sábio
s de filmes de superação de Sessão da Tarde (daqueles de roteiros clichês em que o time perde o tempo todo, mas que no final consegue uma vitória emocionante e milagrosa); "o importante mesmo é jogar e se divertir", eles repetem todo o tempo. Piegas ou não, foi através dessa fórmula que a indústria do videogame ficou milionária. De certa forma, esse poderia ser o caso dos relacionamentos, mas isso seria um tanto óbvio. Afinal, por mais que a adrenalina, o risco, e a expectativa do resultado incerto nos conduzam, acredito mesmo, como falávamos anteriormente, que inventar regras parece ser um dos motivos mais estimulantes para todos que se envolvem e embarcam em uma relação. Estimulantes não, penosos, se me permitem a retificação.

É aquela velha história, tipicamente ilustrada pelo caso de duas pessoas que recém se conheceram e resolveram entrar no jogo da conquista. Eles trocam o número de telefone, MSN, Orkut, Facebook, Twitter, Skype e sei lá mais o que, mas no fundo eles querem mesmo é trocar saliva e fluídos. Logicamente, eles não podem dar seus braços a torcer, pois nada pode ser tão fácil e simples como se supõe. Logo, eles resolvem criar as tais regras e complicar tudo. Ele poderia ligar para ela a qualquer hora, convidá-la para sair ou simplesmente pergunt
ar "como foi seu dia". Mas é claro que ele não vai fazer isso. Esperar pelo menos dois dias para entrar em contato e criar um clima de mistério são as suas regras. Aí, ao invés de ligar, manda uma mensagem de texto "despretensiosa", tentando mascarar seu óbvio interesse com palavras minuciosamente selecionadas, pensadas e repensadas várias vezes. Enquanto ela não responde, ele padece sobre o interlúdio torturante do tempo de espera. Mas tudo bem, ele fez a sua jogada em seu turno.

Ela, por sua vez, poderia
ter feito o mesmo que ele antes. Sabe-se lá quantas vezes já fuçou e espiou o Facebook e Twitter dele com o intuito de descobrir algo, mas se conteve a entrar em contato e acalmar sua ansiedade pois estava jogando de acordo com as regras daquela disputa. Por tradição, era o celular dela que deveria esperar a primeira chamada, e não vice-versa. E aí eu pergunto a vocês, estratégicos leitores: qual a finalidade de tudo isso? Alimentar as expectativas, adiar uma desilusão inevitável ou simplesmente jogar de acordo com as regras desse jogo, ridículo se pararmos para analisar. Mais uma vez, façam suas apostas...

Também já vivi e presenciei relacionamentos que mais pareciam um jogo de xadrez, pois cada lado calculava seus próximos passos na relação com tanta cautela e estratégia que fariam um enxadrista profissional parecer um afobado. Um lado não dizia nem fazia nada enquanto o outro não fizesse nem dissesse o mesmo, como se ambos estivessem sempre jogando pelas falhas alheias. Se um sentimento fosse revelado, ou escapasse sem querer pelo calor da hora, o risco era o mesmo que entregar uma torre para um peão, pois nunca se sabia qual seria a jogada que o outro lado estava a tramar. No final, o xeque-mate tão temido por ambos os lados era dispensado, pois o jogo acabava com a desistência mútua, pois jogar em uma relação pode ser também muito exaustivo e decepcionante. Olhando o tabuleiro abandonado com as peças desordenadas por horas de um jogo frio e calculista, o substrato da relação acabava pelo repúdio a tantas regras e pela inconformidade de tanto tempo perdido. As peças não tombaram tampouco as regas criadas em nome da partida, justamente ao contrário dos sentimentos de seus jogadores.

Normalmente nos relacionamentos, se você não dá um xeque-mate nas regras, elas dão um xeque-mate em você. Não existem apostas ou estratégias mirabolantes nessa hora. Nunca ninguém questiona os reais motivos pelos quais devemos agir de acordo com esses regulamentos, pois no final das contas, as únicas arbitrariedades que valem no campo dos sentimentos, são aquelas apitadas por nossos próprios corações. Drástico, mas tememos os cartões vermelhos mesmo sem termos entrado no jogo para cometer algumas faltas. "É amigo", como diria o insuportável do Galvão Bueno, "Copa do Mundo..."

Por deboche do destino, enquanto o mundo girar, a roleta dos sentimentos vai fazer o mesmo. Da mesma forma, os relacionamentos ainda vão ser as partidas favoritas daqueles que buscam completude sentimental, emoções, e altas doses de adrenalina no tabuleiro da vida. Preparem-se, pois o jogo do amor sempre será mais apostado que a Mega Sena e mais recorrido do que par-ou-ímpar. As regras seguirão sendo inventadas, modificadas e readaptadas, mas isso faz parte se queremos entrar nessa jogatina, em que ganhar ou perder fica só por nossa conta e risco. Afinal, se precisamos e inventamos as regras, é devido ao medo de enlouquecermos nesse jogo. As regras nos enganam, pois com elas pensamos que estamos fazendo às coisas certas. Ganhar ou perder, não importa, nós, meros mortais, vamos apenas seguir jogando, pois a banca do cassino das ilusões nunca quebra. Então senhoras e senhores, façam suas apostas e que rolem os dados...


quinta-feira, 3 de março de 2011

"Foi só mais um amor de verão..."


Com o fim do verão, mais romances e corações ficaram à deriva das ondas na beira da praia. Mas afinal, pode essa estação acabar colocando areia nos relacionamentos?



Tão clichê quanto chinelo havaiana e protetor solar, só mesmo o lendário mito de encontrar um amor no verão. Bastam os dias ficarem mais quentes, os ânimos mais exaltados e as roupas mais curtas, que logo todo mundo pensa que faz parte daquela música insuportável do "vem chegando o verão, um calor no coração... blábláblá". Bem, "amor de verão" ou "paixão de temporada", a realidade é que mais uma vez estamos tratando de sentimentos exaltados. A encrenca como sempre é a mesma, a diferença é que agora ela acontece na beira da praia.

Para começo de conversa, essa de "amores de verão, que vem e que vão", é sempre uma coisa superestimada. "Amor", por assim dizer, é algo bem mais complicado e não pode se resumir àquela paixonite de 2 ou 3 semanas. Porém, ninguém duvide da intensidade pela qual esses romances de veraneios se sustentam.


Acho belo e drástico aqueles casos de pessoas que se apaixonam em um verão, e depois são obrigadas a lidarem com o fim prematuro do romance; pois ele vai r
etornar para Pindamonhangaba depois das férias, e ela vai ficar sozinha naquele litoralzinho do fim do mundo. Sempre há uma beleza agridoce naquelas histórias de pessoas de cidades distantes, que se conheceram durante o carnaval em um balneário qualquer, lá onde Judas perdeu os chinelos, e depois tiveram q
ue se separar. Prometeram manter a relação à distância, juraram amor eterno; trocaram MSN, Orkut, Facebook e o escambau; mas o que era para ser para sempre, não durou mais do que dois telefonemas em março. O amor de outrora ficou enterrado nas areias daquela mesma praia em que se apaixonaram, justamente como aconteceu com o centenas de outros.

Mas a vida tem dessas coisas, e como todas as relações, elas sempre terminam de algum jeito.
Nesses casos, são mais corações à deriva, só
que das ondas na beira da praia. Já diz o ditado, "amor de praia não sobe a serra", tudo fica sempre sendo apenas "mais um amor de verão". Contudo, apesar de eu continuar achando que essa crença só se mantém viva devido ao sol que derrete os miolos das pessoas, a verdade é que existem inúmeras possibilidades de se encontrar um romance ou rolo no verão. E as probabilidades de se apaixonar nessa temporada, são as mesmas de se pegar uma intoxicação alimentar na praia, após se comer um pastel de camarão de procedência duvidosa. Enfim, as chances são grandes e os motivos são vários.


O lado mais poético e afemina..., quer dizer, sensível (!) das pessoas tende a ver os dias de verão como uma renovação da vida e das esperanças.
É como se o sol brilhasse dando uma nova chance aos nossos sentimentos mofados, e o calor da estação, assim como um
microondas, derretesse nossos corações congelados pelo frio do inverno e pelas decepções passadas. Até mesmo porque, em decorrência das férias que coincidem com essa época, há mais tempo para não se fazer nada. Por conseguinte, ficamos com a cabeça mais livre para se pensar e fazer besteiras, o que nos coloca numa situação de risco para acabarmos nos apaixonando. Além disso, as mudanças de ares da estação costumam instigar nossos devaneios românticos. Assim, qualquer beira de praia ou piscina de lona de 1000 litros em uma noite estrelada, já serve como cenário atípico para nos interessarmos por qualquer turista com sotaque diferente, bronzeado cor de pimentão e hálito de caipirinha. No verão, especialmente na praia, tudo é diferente. Não há as mesmas obrigações costumeiras de antes, a rotina praticamente inexiste nos casais. Tudo pode virar uma aventura entre tomar um banho de sol à tarde e se fazer um lual à noite.

Por um outro lado, mais realista e menos afetado que o citado anteriormente, é nesse período que as pessoas entram em uma fase animal de ebulição hormonal (titio Darwin pode confirmar isso); ou seja, é por isso que nós, como bons primatas, saímos por aí cumprindo com nossos instintos biológicos conforme prevê a mamãe natureza. Pois, se você parar para pensar um pouco, amor, paixão e qualquer coisa ligada a isso, pode ser uma boa sinonímia para explicar nossos instintos animais e nossa necessidade evolutiva de copular e disseminar a espécie. Em resumo, desculpas para o amor, como no caso dessas de histórias de verão, é no final das contas, mais uma justificativa para se fazer sexo.
E se tratando do conjunto amor/verão, às coisas sempre vão um pouco além. Ironicamente, é nesse período, que segundo as pesquisas em que ninguém confere os dados, no qual os casais mais desmancham seus relacionamentos. A desculpa é sempre a mesma: "é verão, época de curtir a vida". O que isso significa titio Darwin?

Ora, se o macaco quer pular nos galhos de outras macacas, algum elemento daquele casal bacaninha do inverno vai querer aproveitar "os dias mais quentes, os ânimos mais exaltados e as roupas mais curtas". Logo, vai querer cumprir com sua conduta biológica. Mais pessoas transitam pelas ruas, dormem mais tarde, consomem mais alcool e ficam mais propensas à caça. Segundo os biólogos de plantão, a maioria das espécies aproveita mesmo os dias mais quentes para se reproduzirem, e fazem isso com o maior número de parceiros(as) possíveis (só os pinguins são monogâmicos e fieis durante toda a vida, mas lembrem-se: eles vivem na Antártida!). Naturalmente, não vemos os resultados de toda essa eferverscência em nossa sociedade humana, pois o que não nos falta são métodos contraceptivos. (Mesmo assim, estatisticamente, aqui no Brasil, os meses de Setembro a Novembro são os com as maiores taxas de natalidade. Esse fenômeno é chamado pelos especialistas de "Efeito Carnaval". Ok, isso são mais dados que ninguém confere a legitimidade)

Diante disso, e de todos esses esquemas de biologia, hormônios e disseminação da espécie, os "eu te amo para sempre" ditos sob um calor escaldante de 40º graus em um fim de tarde praiano, não são meros acasos. Todavia
, vocês certamente sabem de inúmeros casos e casais que deram certo e começaram com uma história de verão. Tudo bem, mas eu sei de mais outras centenas de amores de outono, primavera e inverno que também deram certo e ninguém fica dizendo por aí: "ah, aquele frio de gelar nossos ossos foi o responsável por nosso amor..." Como já disse, tudo é mais superestimado no verão. Aliás, tudo é sempre superestimado quando se trata do coração.


E como sempre é o coração que está em jogo, ao final da estação o ditado "amor de verão não sobe a serra" acaba perdurando. Aquela paixão e aqueles dias quentes sempre farão parte de nossas memórias, justamente por terem se sobressaído do comum e do rotineiro. Talvez seja essa a verdadeira força do mito. Pois logo, quando menos se espera, tudo volta ao normal, e até mesmo aquele casal nascido à beira da praia, pode virar vítima do "um já esqueceu o outro, o outro já esqueceu o um".


E na minha humilde e ensacada opinião, é até bom que seja dessa forma. No fundo, a graça disso tudo é acreditar na existência desse "amor de verão", mesmo que ele não seja um "amor" de verdade. Seja lá se é uma história de anos, ou se é mesmo uma paixonite de alguns dias que passamos na praia e acreditamos que finalmente nossos corações seriam felizes; tudo gira em torno de expectativa, completude e sofrimento (e sexo na maioria das vezes!). Mesmo que a ressaca acabe derrubando os castelos que construímos na areia, assim como o mundo faz com nossos sentimentos exaltados, viver não faz muito sentido se não for assim. Lembrem-se que amores de verão são como as ondas do mar, "vem e vão", e acabam sempre retornando junto com nossas expectativas a cada janeiro de nossas vidas.


Fotos:
Isabella M. Heemann
Modelo convidada como
Srta. Apendicite: Aléxia Montezuma

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Sai daqui!"



Por que afastamos as pessoas de nossos relacionamentos, por sermos apenas nós mesmos?


Não sei o que veio primeiro: se foi a tampa da privada que ficou levantada ou a b
riga pelas gotas de urina que caíram milimetricamente fora do seu destino. Também é difícil explicar quantas guerras mundiais começaram por calcinhas penduradas nos registros do chuveiro, e como toalhas molhadas em cima da cama fazem a alegria financeira das funerárias. Tudo o que sei é que quando um relacionamento começa a ficar mais podre do que peixe fora da geladeira, somente as pessoas envolvidas nele são as verdadeiras culpadas. E essas, normalmente, ao sentirem a coisa feder, tratam logo de se escapulirem.
Fiquem certos de uma coisa, estimados leitores: um relacionamento insustentável é pior do que uma viagem até o Canfundó do Judas, num calor escaldante de 40º, em um ônibus velho e sem ar-condicionado, fedendo a vômito de criança e sovaco de pedreiro. Mesmo que eu tenha arranjado briga com toda uma classe de operários de construção cívil que não usa desodorante, vale a ilustração: na vida sentimental, é mais fácil correr do que ficar e encarar as consequências por nossas falhas. Afinal, crueldade ou não, as pessoas são as principais responsáveis pela maioria das coisas que não dão certo em suas vidas.

Claro, isso nem sempre se constitui em uma regra. A vida é sacana mesmo, e às vezes as pessoas estão isentas das merdas que lhes acontece. Que digam as criancinhas que nasceram sem braço e que batem palmas nos programas do Teleton. Mas na maioria dos casos, a fatalidade acontece quando uma criatura coloca o braço pra fora para mandar o motoboy se fuder, e não vê o ônibus que vem na mesma direção. Nos relacionamentos amorosos a dinâmica é quase a mesma. Tudo pode estar indo muito bem, mas lá nas tantas, alguém inventa de ensinar para o outro a metodologia científica de como se apertar uma pasta de dentes de acordo com as normas técnicas da ABNT e o relacionamento começa a entrar em maus lençóis.


Aí neste ponto você me pergunta: "ok, seu retardado de saco de papel na cabeça, como uma coisa tão ridícula pode fazer com que um relacionamento
comece a dar errado?" E o titio Apêndice aqui te responde: ora, são nas pequenas coisas que as grandes nos são reveladas. Pensem no DNA. Ele é microscopicamente impossível de ser visto, mas de acordo com os geneticistas, ele possui todas as informações possíveis sobre alguém, desde a cor do seu cabelo, até seu peculiar gosto por sorvete de pistache com cobertura de aspargo. E nem é preciso ir ao fundo de suas células para se saber da coisa mais óbvia sobre os humanos: eles são chatos, cheios de manias e nunca estão satisfeitos com nada.

Lembro que disse uma vez nesse blog que conforme as pessoas fossem complicadas seus relacionamentos seguiriam a mesma tendência. E como todos estamos cansados de saber, o amor é uma coisa complexa demais. Vão a PQP aqueles que dizem que o amor é simples e natural que "desabrocha" na vida de todos. Não. Coisa simples e natural na vida de todos é fazer cocô. No amor é assim: a partir do momento que você junta dois seres diferentes dispostos a dividirem um sentimento, a encrenca está armada. Dois corpos acoplados, dividindo a mesma cama na hora de descarregar suas tensões e necessidades sexuais é algo belo, poetizado por séculos e comercializado há anos pela indústria pornográfica. Porém, quando o assunto é "vira para o lado que eu quero dormir" a história muda de figura. Haja sentimento e paciência para dividir o ar e os gases com alguém que ronca ao seu lado. É como um amigo costuma dizer: "a transa perfeita é aquela que vira pizza e cerveja depois que você goza."

Mas voltando a realidade, muitos parecem se esquecer que um relacionamento não se sustenta em apenas um lado. A maioria continua colocando suas necessidades e individualidades acima do bem comum e dos próprios sentimentos compartilhados. A ironia nisso tudo fica em nossa incapacidade de lidarmos com nós mesmos, pois procuramos desculpas e saídas em tudo, menos onde mais importa. Ouvimos explicações do tipo "minha astróloga disse que meu namoro não deu certo porque Áries entrou em conjunção com Saturno e que as chuvas no interior de Pindamonhangaba foram decisivas para o nosso fim." Ah, por favor... Por que simplesmente não encontramos as falhas em nós mesmos antes de inventarmos de nos relacionar com uma outra pessoa? Já diz o sábio ditado: "arruma tua casa antes de receber visitas". Pois é...

Mesmo assim, continuamos a deixar que nosso egoísmo, egocentrismo, egotismo e sei lá mais quantas coisas que começam com "ego" sigam a manchar nossos relacionamentos, pois não sabemos como os conter. Dessa maneira, sempre que entramos numa relação, parecemos infantis e mesquinhos o suficientes para compartilharmos algo de bom com alguém (ou pensam que eu não sei que ninguém é 100% verdadeiro oferecendo bolachinhas recheadas para os outros e que só fazemos essa balela por educação?). Não saber como dividir algo com alguém, é um índice da falta de aptidão dos seres em lidar com os outros. Logo, quando formos atingidos por aquelas coisas chatas que seguidamente nos assolam, como as tristezas e as birras com o mundo, não vamos saber como maneja-las direito, principalmente se tivermos uma pessoa ao nosso lado. Aí vamos recair em cometer uma das maiores burradas que os seres humanos vivem a fazer desde os primórdios, que é brigar e descontar nossas insatisafações em quem a gente mais gosta. Um outro amigo e leitor de minhas crônicas, disse em seu blog, o Grau Zero, uma coisa genial: "tem mais de 6 bilhões de pessoas no mundo, mas é apenas com aquelas 3 mais próximas e que se importam conosco que a gente briga".


E não é verdade? Triste, mas em vários relacionamentos, muitos ficam tão centrados em suas manias, que acabam valorizando mais seus umbigos do que seus corações. Além disso, esses infelizes acabam se tornando verdadeiros especialistas em manter as pessoas afastadas. Não é de se suspeitar, que são justamente essas pessoas que mais se queixam de como são infelizes no amor. Porém, quando se aproximam de alguém, partem para cima do outro como se fosse uma luta de boxe. Para essas pessoas, uma placa de "sai daqui!" lhes pouparia litros de saliva e lágrimas. O mais espantoso é que essas criaturas vivem a afastar seus relacionamentos, e ao invés de fazerem um auto-exame de consciência decente, se tornam ainda mais toscas e exigentes, aumentando suas dificuldades em lidarem com novas oportunidades e pessoas.


Querem carinho e atenção, mas não sabem nem ao menos cuidar de uma planta. Reclamam que ninguém escuta seus sentimentos, mas não aguentam 5 segundos de papo de um serviço de Telemarketing (ãhn... ok, isso é compreensível...). Enfim, exigir dos outros é sempre mais fácil e barato, mas seria muito mais simples para o mundo dos relacionamentos se todas pessoas soubessem dar o que elas tanto requisitam. Porém, é mais fácil ganhar na Mega Sena acumulada do que corrigir essa falha condição humana.
 

O mundo é tão bizarro que há aqueles que não se aturam sozinhos, e por isso inventam de se juntarem a outros seres humanos tão maníacos quanto eles. Da mesma maneira, há também aqueles que só conseguem viver em pleno isolamento, dedicados apenas a suas refeições congeladas e seu controle remoto, intocável por qualquer outro ser humano na face da Terra. No final, fica cada um por sua conta e risco. Relacionamentos podem ser bons indicativos para aprendermos a lidar com nossas próprias manias antes mesmo de entendermos qual é o esquema da tal outra pessoa. No entanto, ser aprovado nesse teste não é nem um pouco fácil. O vestibular de Medicina da USP é mais barbada. Até mesmo porque, o difícil nessa história de relacionamentos, é saber como lidamos com a complexidade da vida. Além, claro, de dominarmos a tal técnica de se mijar com a tampa do vaso levantado.