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domingo, 21 de outubro de 2012

Volta por baixo

Sr. Apêndice é encontrado mendigando pelas ruas. Mistério do desaparecimento do cruzado dos relacionamentos amorosos finalmente chega a uma dramática resolução. Desiludido, ele confessa: “já mendiguei amor, hoje me contento com meio x-salada”.  Confira tudo nesta impressionante reportagem.

O ano era 2010 e um curioso blog surgia na blogosfera. Intitulado “Crônicas do Sr. Apêndice”, o blog escrito pelo homônimo e misterioso Sr. Apêndice era um destilado ácido e agridoce das eternas indagações sobre os relacionamentos amorosos. Descrito pelo próprio autor como um lugar de “encheções de sacos amorosas”, o blog não poupava ninguém com tiradas críticas e bem humoradas das (des)ilusões amorosas, que iam desde abordagens cotidianas até questionamentos existenciais.

No entanto, desde 12 de junho de 2011 - data da última crônica postada - o blog encontra-se abandonado, sem nenhuma manifestação de seu autor, fato que suscitou a curiosidade e aflição de seus leitores. Muito se especulou sobre o sumiço do Sr. Apêndice; uns afirmavam que ele finalmente cansou da sua eterna e infecunda cruzada contra os relacionamentos amorosos, engordou e estava apostando todos os meses na Tele Sena; outros juravam que ele finalmente se apaixonou e alterou todas suas perspectivas sobre o assunto; e ainda havia alguns teóricos da conspiração que asseveravam que o ensacado personagem era uma fraude do sistema, usado por uma fábrica de chocolates à beira da falência a fim de vender bombons aos deprimidos leitores.

Porém nada disso era verdade. Após uma decepção amorosa “das brabas”, conforme suas palavras, o Sr. Apêndice literalmente surtou. Após tentar se internar várias vezes em uma clínica de reabilitação para drogados, com o intuito de se livrar do pior narcótico do mundo, a paixão não correspondida, ele foi jogado a própria sorte e saiu a vagar sem rumo pelo mundo. Durante mais de um ano, ele tem vivido em sarjetas, construções abandonadas e calçadas, entregue à piedade alheia para poder sobreviver. “Quando fui tentar me internar não fui aceito, porque, segundo os psiquiatras, paixão não era uma droga”, revela o Sr. Apêndice, um ano depois do seu desparecimento do blog. “Me disseram que meu problema era falta de ocupação, que um coração vazio se curava com uma enxada nas mãos”.

Visivelmente mais magro, sujo e abalado, o Sr. Apêndice foi encontrado esta manhã em um terreno baldio, trajando trapos, enrolado em um cobertor velho e deitado sobre pedaços de papelão. Entre seus pertences, uma garrafa vazia de vodka barata e uma cópia amarrotada de “Mulheres”, do autor americano Charles Bukowski. “O quê? Pensaram que eu lia sonetos de amor do Shakespeare?” – bradou a criatura encapuzada ao ser questionado sobre sua leitura. “Limpei meu rabo com Romeu e Julieta esses tempos” – debochou desconcertado.

Sobre sua situação atual de miséria, consequência da sua fuga do blog e do mundo, o Sr. Apêndice foi impreciso: “sabe como são às coisas; às vezes você tem um tesão pré-adolescente pelos seus feitos, outras tudo parece uma bobagem. Foi assim comigo, uma hora eu percebi que o mundo e os relacionamentos não eram tudo aquilo, que eles não iriam mudar e que tanta “encheção de saco” só servia para encher o saco mesmo! Além do mais, eu precisava arejar as ideias. Saí para comprar cigarros no boteco da condição humana e nunca mais voltei. Até porque eu não fumo mesmo.”

Segundo o Sr. Apêndice, o vácuo teve seu aspecto positivo em suas reflexões. Nessa temporada, isolado e sem-teto, ele se permitiu a reconsiderar alguns pontos de vista. “Não quer dizer que os culpados sejam os próprios relacionamentos amorosos. Eles sempre vão ser complexos e confusos, seguindo aquela eterna mística de contradições e expectativas. O que ferra mesmo é a realidade, essa representada pelas pessoas que expõem seus sentimentos umas às outras. No final das contas, talvez culpar a existência e a sorte seja o mesmo que mijar em incêndio – o complicado são as pessoas mesmo” – e indaga, “e aí, o que se faz quando tudo no mundo dos relacionamentos gira em torno de pessoas? Se apaixona por uma árvore? Convida uma poltrona para ir janta à luz de velas?” Por fim, enfatiza:“A não ser que você seja um pansexualista ou monge tibetano, você está preso no jogo. E esse jogo é muito tenso, sobrecarregado de pressões que deixa vestibular de medicina na USP igual a teste de pré-escola, e final de Brasileirão igual a futebol de fim de semana de campinho de várzea. É um mundo de histórias, dramas, desesperos, perdas, músicas pops de dor de cotovelo e filmes com a Kate Hudson que fazem da humanidade uma colcha de retalhos que só serve para te sufocar ao invés de te cobrir. É como me disse um outro mendigo esses dias, ‘tira o ser humano da Terra e tu vais ver a beleza de mundo que fica’”.

O Sr. Apêndice se negou a dar detalhes da sua última e fatídica decepção amorosa, virtualmente a causa pelo estado deplorável que se encontra. Em uma tosse carregada, ele apenas balbuciou a seguinte sentença: “vou começar a evitar certos signos”. Quanto ao futuro, ele ainda diz que é complicada uma nova perspectiva de vida, apesar de se assumir mais racional e distante de tais incômodos, mas dá um recado aos leitores, bem-humorado como é de seu estilo: “agora que me acharam, vou ter que voltar de um jeito ou de outro; até porque não aguento mais jogar canastra com esses ratos aqui no banhado. Além disso, os FDP já estão de olho na minha casa de caixa de papelão de geladeira Consul há um bom tempo”. Em sua nova fase no blog, além dos conhecidos debates sobre os relacionamentos amorosos, também haverá espaço para críticas ao cotidiano e escarradas ácidas na condição humana, às vezes em forma das tradicionais crônicas, outras por meios de contos, ensaios e até, quem sabe, por meio de alternativas multimídias, como vídeos e podcasts. O blog também contará com uma página no Facebook. Porém, mesmo com as novidades, o Sr. Apêndice sentencia: "mas não se animem muito. No final das contas acho que vai dar a mesma merda de sempre".

Questionado sobre algum desejo imediato, o Sr. Apêndice foi sintético: “quem vive sem um apêndice sabe viver sem qualquer coisa vital, mas se vocês puderem me dar uns 10 pila para eu comer um xis ali no trailer da esquina, eu agradeceria. Já mendiguei muito amor nesta vida, mas hoje em dia me contento com meio x-salada”.
  
 
Fotos: Isabella Maciel Heemann




 

sábado, 11 de junho de 2011

Namoro de ocasião

Uma crônica em "homenagem" ao Dia dos Namorados


Como qualquer data comercial, o Dia dos Namorados também é um dia cretino. Aliás, talvez a mais cretina de todas as datas em que você é forçado a comprar um presente. O Dia dos Namorados ganha até do Natal e da Páscoa em termos de data mais cara de pau do calendário. Sim, pois a questão desse dia não é desejar "paz ao mundo aos homens de boa fé" e comer peru com aqueles parentes insuportáveis, muito menos se entupir de chocolate só porque Cristo ressucitou pelo enésima vez em um domingo. Não.

O Dia dos Namorados é pior. Ele é mais vil, pois além de nos incutir a obrigação moral de comprar algum presente ridículo e brega (como aquelas almofadas de coração com bracinhos com o escrito "Te amo um tantão assim"), ele dissemina um pseudo-senso de romantismo exacerbado nas criaturas ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre nossa condição de seres carentes/necessitados/solitários/abandonados/infelizes, etc.

É incrível, mas mesmo aqueles que se dizem alheios ao assunto acabam cedendo de alguma forma para a "importância" da data. O Dia dos Namorados consegue a façanha de incomodar até os solteiros convictos e os niilistas de plantão, que mesmo no alto de seu desdém romântico, ainda se importam em emitir pareceres indignados quanto ao dia 12 de junho.

No entanto, para o resto dos mortais, a data é sentida pelo peso que ela se propõe a ter. Para aqueles que namoram, o dia 12 tem o seu aspecto sacro. O ritual de comprar um presente, escrever um cartãozinho meloso, jantar um fondue e beber um vinho, e ainda ir para aquele motelzinho fazer um "papai e mamãe" faz parte do imaginário da data, e muitos colocam isso acima da própria importância da relação. Não importa se o namoro ande uma merda; dia 12 ele tem que dar rosas para ela não se sentir a pior pessoa do mundo. Dane-se se aquele casamento de 10 anos passa por uma crise abissal; na noite do Dia dos Namorados os dois vão sair para jantar em um restaurante caro e depois vão transar em nome da obrigação do rito. É eu sei, hipocrisia social mandou lembranças.

Mas como disse no início desta crônica, isso faz parte da cretinice da data, como é comum em todas as datas comerciais. Natal só é Natal porque o Papai Noel é o verdadeiro espírito capitalista e Páscoa só é Páscoa porque Jesus Cristo era chocólatra e fã do Pernalonga. Com o Dia dos Namorados é a mesma coisa. As lojas não penduram centenas de coraçõezinhos vermelhos em suas vitrines porque é o dia internacional do transplante cardíaco ou porque é dia de dizer àquela pessoa especial que você a ama. Óbvio que não. O esquema é o mesmo de sempre: compre e mostre seu amor em 6 vezes sem entrada no cartão.

Sim, pois muita culpa de nos sentirmos tocados por essa data vêm dos apelos comercias vida a fora. Você liga a TV e vê propagandas emocionantes de perfumes com casais perfeitos protagonizando cenas tenras de romance barato; abre o jornal e se depara com um ensaio sensual de lingerie com os dizeres do tipo "neste Dia dos Namorados abuse de sua sensualidade". Porra! A interpelação midiática chega a ser covarde! Por isso, mesmo que você não namore ou coisa do tipo, você acaba vivendo a data da mesma maneira.

Se você está solteiro, você é automaticamente apartado da data. Sim, pois todo mundo pode ganhar presentes no Natal, mas no Dia dos Namorados só quem namora. E todo mundo sabe como é um saco ver todo mundo abrindo presentes na sua frente e você não ganhar nada! A carência é irmã do egoísmo. Diante dessas circunstância, bate aquela revolta clássica contra a data. Surgem aquelas manifestações clichês: "eu não passo o 'Dia da Árvore' com uma árvore nem o 'Dia do Índio' com um índio, então por que eu passaria o Dia dos Namorados com um namorado?". Resposta: porque, não, porque você não teve competência para isso! Então, se vire e aguente as histórias de suas amigas no outro dia se exibindo de como foi maravilhosa a noite do dia 12 e sacudindo as quinquilharias que ela ganhou do namorado "perfeito". Mas não se encane com isso, provavelmente a ocasião não foi nada daquele filme romântico que ela narrou. É tudo uma questão de exibicionismo. (Aproveite e destile seu ódio e seu recalque nesta criatura, hahaha).

Mesmo assim, a grande maioria não entra nessa onda de revolta gratuíta. Muita gente cai na armadilha do namoro por ocasião. Ora, já que a data é cretina, vamos ser cretinos também. Dessa maneira, muitos promovem aquele rolo meia boca do fim de semana a um namoro sem ter a miníma e real vontade de namorar, só para não passar o dia 12 de junho "sozinhos". Ou então, aquela relação que está só se segurando pelos fiapos aguenta mais um pouco em nome da troca de presentes. E dá-lhe flores e bombons que vão durar mais tempo que o relacionamento.

Esta é a realidade, e infelizmente a coisa não vai muito longe disso. Mas antes que vocês pensem que eu, o Sr. Apêndice, estou mais uma vez despejando um recalque insensato em cima de uma ocasião necessariamente importante no mundo das relações, eu me defendo: é normal se sentir assim. Afinal, a culpa não é nossa, pobres mortais atirados no Coliseu do amor e entregues aos leões da realidade. É a nossa sina, e nós que vamos morrer, saudamos o imperador.

Bem, depois deste manifesto, creio que não vou parecer tão cretino em desejar a todos, namorados, solteiros, casados ou enrolados um Feliz Dia dos Namorados! Aproveitem seus ursinhos de pelúcias e suas fronhas de melhor namorado(a) do mundo, e se exibam bastante. Corram, e arranjem logo alguém para você sair para jantar neste dia 12, porque daqui há alguns dias, ninguém vai se importar mais com isso...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Sai daqui!"



Por que afastamos as pessoas de nossos relacionamentos, por sermos apenas nós mesmos?


Não sei o que veio primeiro: se foi a tampa da privada que ficou levantada ou a b
riga pelas gotas de urina que caíram milimetricamente fora do seu destino. Também é difícil explicar quantas guerras mundiais começaram por calcinhas penduradas nos registros do chuveiro, e como toalhas molhadas em cima da cama fazem a alegria financeira das funerárias. Tudo o que sei é que quando um relacionamento começa a ficar mais podre do que peixe fora da geladeira, somente as pessoas envolvidas nele são as verdadeiras culpadas. E essas, normalmente, ao sentirem a coisa feder, tratam logo de se escapulirem.
Fiquem certos de uma coisa, estimados leitores: um relacionamento insustentável é pior do que uma viagem até o Canfundó do Judas, num calor escaldante de 40º, em um ônibus velho e sem ar-condicionado, fedendo a vômito de criança e sovaco de pedreiro. Mesmo que eu tenha arranjado briga com toda uma classe de operários de construção cívil que não usa desodorante, vale a ilustração: na vida sentimental, é mais fácil correr do que ficar e encarar as consequências por nossas falhas. Afinal, crueldade ou não, as pessoas são as principais responsáveis pela maioria das coisas que não dão certo em suas vidas.

Claro, isso nem sempre se constitui em uma regra. A vida é sacana mesmo, e às vezes as pessoas estão isentas das merdas que lhes acontece. Que digam as criancinhas que nasceram sem braço e que batem palmas nos programas do Teleton. Mas na maioria dos casos, a fatalidade acontece quando uma criatura coloca o braço pra fora para mandar o motoboy se fuder, e não vê o ônibus que vem na mesma direção. Nos relacionamentos amorosos a dinâmica é quase a mesma. Tudo pode estar indo muito bem, mas lá nas tantas, alguém inventa de ensinar para o outro a metodologia científica de como se apertar uma pasta de dentes de acordo com as normas técnicas da ABNT e o relacionamento começa a entrar em maus lençóis.


Aí neste ponto você me pergunta: "ok, seu retardado de saco de papel na cabeça, como uma coisa tão ridícula pode fazer com que um relacionamento
comece a dar errado?" E o titio Apêndice aqui te responde: ora, são nas pequenas coisas que as grandes nos são reveladas. Pensem no DNA. Ele é microscopicamente impossível de ser visto, mas de acordo com os geneticistas, ele possui todas as informações possíveis sobre alguém, desde a cor do seu cabelo, até seu peculiar gosto por sorvete de pistache com cobertura de aspargo. E nem é preciso ir ao fundo de suas células para se saber da coisa mais óbvia sobre os humanos: eles são chatos, cheios de manias e nunca estão satisfeitos com nada.

Lembro que disse uma vez nesse blog que conforme as pessoas fossem complicadas seus relacionamentos seguiriam a mesma tendência. E como todos estamos cansados de saber, o amor é uma coisa complexa demais. Vão a PQP aqueles que dizem que o amor é simples e natural que "desabrocha" na vida de todos. Não. Coisa simples e natural na vida de todos é fazer cocô. No amor é assim: a partir do momento que você junta dois seres diferentes dispostos a dividirem um sentimento, a encrenca está armada. Dois corpos acoplados, dividindo a mesma cama na hora de descarregar suas tensões e necessidades sexuais é algo belo, poetizado por séculos e comercializado há anos pela indústria pornográfica. Porém, quando o assunto é "vira para o lado que eu quero dormir" a história muda de figura. Haja sentimento e paciência para dividir o ar e os gases com alguém que ronca ao seu lado. É como um amigo costuma dizer: "a transa perfeita é aquela que vira pizza e cerveja depois que você goza."

Mas voltando a realidade, muitos parecem se esquecer que um relacionamento não se sustenta em apenas um lado. A maioria continua colocando suas necessidades e individualidades acima do bem comum e dos próprios sentimentos compartilhados. A ironia nisso tudo fica em nossa incapacidade de lidarmos com nós mesmos, pois procuramos desculpas e saídas em tudo, menos onde mais importa. Ouvimos explicações do tipo "minha astróloga disse que meu namoro não deu certo porque Áries entrou em conjunção com Saturno e que as chuvas no interior de Pindamonhangaba foram decisivas para o nosso fim." Ah, por favor... Por que simplesmente não encontramos as falhas em nós mesmos antes de inventarmos de nos relacionar com uma outra pessoa? Já diz o sábio ditado: "arruma tua casa antes de receber visitas". Pois é...

Mesmo assim, continuamos a deixar que nosso egoísmo, egocentrismo, egotismo e sei lá mais quantas coisas que começam com "ego" sigam a manchar nossos relacionamentos, pois não sabemos como os conter. Dessa maneira, sempre que entramos numa relação, parecemos infantis e mesquinhos o suficientes para compartilharmos algo de bom com alguém (ou pensam que eu não sei que ninguém é 100% verdadeiro oferecendo bolachinhas recheadas para os outros e que só fazemos essa balela por educação?). Não saber como dividir algo com alguém, é um índice da falta de aptidão dos seres em lidar com os outros. Logo, quando formos atingidos por aquelas coisas chatas que seguidamente nos assolam, como as tristezas e as birras com o mundo, não vamos saber como maneja-las direito, principalmente se tivermos uma pessoa ao nosso lado. Aí vamos recair em cometer uma das maiores burradas que os seres humanos vivem a fazer desde os primórdios, que é brigar e descontar nossas insatisafações em quem a gente mais gosta. Um outro amigo e leitor de minhas crônicas, disse em seu blog, o Grau Zero, uma coisa genial: "tem mais de 6 bilhões de pessoas no mundo, mas é apenas com aquelas 3 mais próximas e que se importam conosco que a gente briga".


E não é verdade? Triste, mas em vários relacionamentos, muitos ficam tão centrados em suas manias, que acabam valorizando mais seus umbigos do que seus corações. Além disso, esses infelizes acabam se tornando verdadeiros especialistas em manter as pessoas afastadas. Não é de se suspeitar, que são justamente essas pessoas que mais se queixam de como são infelizes no amor. Porém, quando se aproximam de alguém, partem para cima do outro como se fosse uma luta de boxe. Para essas pessoas, uma placa de "sai daqui!" lhes pouparia litros de saliva e lágrimas. O mais espantoso é que essas criaturas vivem a afastar seus relacionamentos, e ao invés de fazerem um auto-exame de consciência decente, se tornam ainda mais toscas e exigentes, aumentando suas dificuldades em lidarem com novas oportunidades e pessoas.


Querem carinho e atenção, mas não sabem nem ao menos cuidar de uma planta. Reclamam que ninguém escuta seus sentimentos, mas não aguentam 5 segundos de papo de um serviço de Telemarketing (ãhn... ok, isso é compreensível...). Enfim, exigir dos outros é sempre mais fácil e barato, mas seria muito mais simples para o mundo dos relacionamentos se todas pessoas soubessem dar o que elas tanto requisitam. Porém, é mais fácil ganhar na Mega Sena acumulada do que corrigir essa falha condição humana.
 

O mundo é tão bizarro que há aqueles que não se aturam sozinhos, e por isso inventam de se juntarem a outros seres humanos tão maníacos quanto eles. Da mesma maneira, há também aqueles que só conseguem viver em pleno isolamento, dedicados apenas a suas refeições congeladas e seu controle remoto, intocável por qualquer outro ser humano na face da Terra. No final, fica cada um por sua conta e risco. Relacionamentos podem ser bons indicativos para aprendermos a lidar com nossas próprias manias antes mesmo de entendermos qual é o esquema da tal outra pessoa. No entanto, ser aprovado nesse teste não é nem um pouco fácil. O vestibular de Medicina da USP é mais barbada. Até mesmo porque, o difícil nessa história de relacionamentos, é saber como lidamos com a complexidade da vida. Além, claro, de dominarmos a tal técnica de se mijar com a tampa do vaso levantado.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Casais & Cia.

Ainda tão pilhado e científico quanto uma criança que ganhou seu Kit de Pequeno Químico de natal, o Dr. Apêndice retorna com mais de suas análises sobre os relacionamentos amorosos, recém descobertas no laboratório da vida. Como prometido, a crônica de hoje traz uma lista de tipos de casais, tão variados, coloridos e complicados quanto as siglas e orientações sexuais que surgem a cada dia.

Em termos de relacionamentos, nada é mais enfatizado e supervalorizado que um casal. Afinal, parece que a principal necessidade da maioria dos seres é dividir algo com um outro alguém, seja uma vida, uma história ou até mesmo uma trepada. Já dizia Aristóteles (Ari, para os íntimos), "o homem é um animal social", ou seja, o ser humano é naturalmente carente e precisa dos outros para alcançar sua plenitude existencial. Em outras palavras e cortando o blá-blá-blá filosófico, não nos bastamos sozinhos. Somos criaturas dependentes e precisamos dos outros para existirmos (não, não é piada!). Simples assim, como um tapa bem dado e estalado. (Se querem reclamar, procurem nosso brother Ari e encham os ouvidos dele. Quem inventou essa história de ser humano carente foi ele...)

Mas deixando a indigestão existencial de lado, vamos a observação prática desses s
eres, que apesar de serem dois, acabam por várias vezes se tornando um. Não importa se eles se amam ou se odeiam, se são fiéis ou libertinos, casais são assim: duas criaturas que decidiram (ou pelo menos foram impostas...) a acoplarem suas identidades e agruparem suas vidas, mesmo que seja apenas por algumas horas. Aliás, já notaram como os casais são tão significantes no cotidiano dos mortais? Desde "o Fulano e a Fulana ficaram ontem" até "o Ciclano e a Ciclana se separaram depois de anos", nenhum comentário é poupado quando o assunto são os casais. Talvez seja por isso que as revistas de fofoca de artistas rendem tanto dinheiro (ao invés de virarem papel higiênico como deveria ser).

Bem, independente do Brad Pitt estar ou não com a Angelina Jolie, a verdade é que temos uma fixação em tudo que um casal representa socialmente, o que é pertinente aos nossos desejos e aspirações particulares (sexo, casamento, filhos, sustentabilidade, amor, contas divididas, caronas depois da festa...). Casais são a base dos relacionamentos, da nossa procura insensata pela outra metade da laranja antes de nos tornarmos o bagaço cuspido. Afinall, nenhuma relação amorosa no mundo existiria se o Adão não tivesse dado uns p
egas na Eva, lá nos primórdios dos tempos (ok, teve o rolo com a Serpente, mas isso é outro papo...).

Então, preparem-se para entrar no mundo dos casais e sejam testemunhas das misturas mais estranhas que a química humana é capaz de produzir. Casais: reconheçam-se ou reneguem-se. Solteiros: vejam o que vocês (ou não!) estão perdendo (ou se livrando!). E se nada disso servir, pelo menos vai valer para tirar sarro daquele casalzinho grudento e irritante que vocês são obrigados a presenciar todos os dias nas ruas...

OS TIPOS DE CASAIS


1. Casal siamês (ou "casal grude", ou ainda "casal bolha"):
esse tipo de casal é facilmente reconhecível, pois eles nunca são vistos separados. Estão sempre grudados um no outro, e fazem praticamente tudo juntos. E bota "juntos" nisso! Frequentam os mesmos lugares juntos. Fazem os mesmos programas juntos. Almoçam e jantam juntos. Estudam juntos. Trabalham juntos. Ficam no intervalo juntos. Se bobear, vão até ao banheiro juntos! Eles vivem tão grudados que desconfia-se que os dois dividem um mesmo órgão vital, como é o caso dos gêmeos siameses. A individualidade deles é tão nula que é praticamente impossível vê-los fazendo algo separados. Nos raros momentos em que isso acontece, passam o tempo todo ligando um para o outro ou conferindo o celular de segundo em segundo, para ver se não chegou uma mensagem nova. Até o perfil nas redes sociais deles é duplo, do tipo "Fulano & Ciclana"! E se por acaso não é assim, a página de cada um deles é dominada por depoimentos, recados e fotos melosas um do outro. Não há espaço para o mundo exterior na vida desse casal, pois eles vivem isolados numa "bolha". Se acontecer o raro acaso deles saírem acompanhados dos poucos amigos que ainda o suportam, parecem continuar fingindo que o resto da humanidade não existe, pois ficam de segredinhos, beijinhos e agarramentos o tempo inteiro, sem darem atenção para o resto da galera. Ah, e eles ainda vão embora mais cedo, alegando que estão muito cansados... Para esse tipo de casal, internamente, o mundo se resume nos dois, pois um não existe sem o outro e eles se bastam. Para o resto dos mortais na Terra, eles são uns chatos insuportáveis.


2. Casal "doce mais doce" (ou "casal açucarado"): é um casal variante do "casal grude", mas o grande diferencial desse tipo é que eles são melosos demais. Mais enjoativos que algodão-doce com merengue e leite condensado. Tudo é motivo para um elogio açucarado e exagerado, para um apelidinho gosmento e para aquelas "vozinhas" insuportáveis de bebê. É repugnante você ver um casal de adultos agindo como retardados e se tratando como bebês, tendo diálogos deploráveis do tipo: "Bebezinho tá bem? Oh, quê coínho? Mimimi...", "Neném ama mamãe! É? Mamãe também ama o neném dela! Tchuctchuctchuc...". A verdade é que esse tipo de casal confunde carinho e demonstração de afeto com falta de senso do rídiculo e regressão mental. Suportá-los sem vomitar é um verdadeiro desafio.

3. Casal vitrine: para esse tipo de casal, o que os outros estão vendo ou pensando é mais importante que a própria relação entre os dois. Um casal vitrine gosta de transformar seu relacionamento em uma espécie de reality show, pois parece que fazem questão de que todos saibam de suas vidas, de como estão apaixonados, vivos, lindos e toda aquela baboseira de casal forçado. Quando começam a namorar, em poucos dias, já trocam declarações de amor eterno pelo Facebook. Pela frase de seus MSNs, podemos acompanhar o status da relação ("Fulano e Fulana - 1 mês de namoro", "Ciclano, vc é o amor da minha vida - obrigada pelos 5 meses perfeitos"), além de seus Twitters serem sempre uma pagação de pau absurda ("amei as flores @amordaminhavida", "sair para jantar com minha @namoradaperfeita #muitoapaixonado"). Ao contrário do "casal bolha", eles fazem questão de estarem sempre na presença dos amigos, que ao vivo e a cores não conseguem notar todo aquele "amor eterno" que eles vivem a jurar. Mesmo assim, o casal vitrine vive a comentar para os outros que estão muito felizes, e adoram trocar presentes caros ou exagerados em lugares públicos. Costumam mobilizar a todos quando o assunto é fazer uma surpresa para o seu (sua) "amado(a)". Apesar de se preocuparem demasiadamente com suas imagens públicas, o casal vitrine não abre mão de uma briga de vez em quando, para que assim consiga fazer de suas vidas uma verdadeira novela. Aliás, esse tipo de casal nunca dura muito, porque sempre falta a eles a base sincera dos relacionamentos, algo que não dá para forçar publicamente, muito menos twittar.

4. Casal que não é casal: eis um tipo difícil de entender. Inesperadamente, duas pessoas que não tem nada em comum, muito menos afeição mútua, resolvem começar um relacionamento. E aí, ao invés deles realmente se assumirem como um casal, eles vivem como se tivessem quase nada um com o outro, pois costumam andar separados e continuam a fazer programas isolados. Você nunca os vê juntos, mesmo se estão no mesmo lugar! Quando chegam em uma festa juntos por exemplo, eles logo se separam e vão ficar com seus amigos a fim de se divertirem apartados. No entanto, quando perguntados sobre o andamento da relação, eles costumam dizer "que está tudo bem" ou "que às coisas não estão nem boas nem ruins, apenas médias". Se a questão é o fim daquela relação mais fria do que morna, o casal que não é casal sempre se perde em explicar os motivos e as razões do porquê que eles persistem em continuar "juntos". Na realidade, nem eles sabem os verdadeiros motivos pelos quais são efetivamente um casal. Nem eles próprios estão convencidos disso! Quem os vê de fora, até fazem apostas de quanto tempo dura aquela "pseudo-relação". Porém, ironicamente, um "casal que não é casal" costuma ir muito mais longe do que qualquer um poderia supor...


5. Casal "quebra-pau" (ou "casal barraco"): "vivem brigando", e só isso poderia os resumir. E quando falamos em "briga", não se trata de qualquer "briguinha de casal", não... Esse tipo de casal gosta mesmo é de um "quebra-pau" violento, daqueles "arranca-rabo" de fazer o programa da Márcia Goldsmith passar vergonha. "Armar o barraco", não importando o quão besta seja o motivo, é com eles mesmo. Normalmente, alguém no casal é excessivamente ciumento, "pavio-curto" ou exagerado (ou tudo isso junto!), e geralmente quando os ânimos se alteram, a coisa sempre engrossa. Além disso, esse tipo de casal, a exemplo do "casal vitrine", adora um público, por isso quanto maior a platéia, maior a intensidade do escândalo. E não adianta tentar apartá-los ou acalmá-los, pois palavrões, xingamentos e tapas eles tem de sobra e para todos. Aqueles que eventualmente presenciam um quebra-pau do casal, já devem ficar de prontidão para chamarem a polícia, a ambulância ou os bombeiros. No entanto, o mais impressionante do casal quebra-pau, é que a despeito deles quase se matarem a toda hora, a relação vai sempre muito bem e costuma durar bastante tempo. É inexplicável, mas é bem comum vê-los se engalfinhando em um dia, e felizes e aos beijos em outro. Quem conhece um casal quebra-pau vai ter sempre a mesma opinião formada: "trata-se de uns 'sem-vergonha' mesmo."


6. Casal "vai e volta": esse tipo de casal vive desmanchando e reatando, sendo que nunca sabemos de verdade se estão juntos ou não. Chegam a dar nos nervos, pois de uma hora para outra estão por aí anunciando que estão solteiros (confira os "solteiros por um dia" na Crônica do Sr. Apêndice anterior), e quando menos se espera (às vezes em menos de 24 horas), já estão juntos de novo. É notável como conseguem terminar seus relacionamentos com a mesma facilidade que os recomeçam. Além disso, mesmo que estejam "solteiros", continuam a agir da mesma maneira do relacionamento, pois vivem preocupados com cada passo do seu "ex". Não é à toa que nunca cortam de verdade seus laços, dando inúmeras chances para seu relacionamento finalmente vingar. Na realidade, esse tipo de casal vive no medo e na indecisão de enfrentarem a solteirice ou um relacionamento de verdade, por isso "não vão nem para frente nem para trás". Entretanto, enquanto não tomam uma decisão de verdade, eles continuam a torrar a paciência de todos a sua volta, fazendo de seu relacionamento um tipo de ioiô, já que eles gostam de brincar de ir e voltar a todo instante...


7. Casal "porra-louca": esse é um tipo de casal literalmente pirado. Sozinhos eles já são loucos o suficientes, juntos então... é melhor se afastar, porque trata-se de nitroglicerina pura! Para eles a vida é uma aventura, e ambos costumam viver experiências totalmente desconvencionais para os outros tipos de casais. Nunca duvide deles. Um dia eles podem estar pulando de um bungee jump juntos, em outro eles podem estar em uma casa de swing, em meio a um bacanal sadomasoquista. Esse tipo de casal realmente gosta de testar os limites de uma relação, por isso com eles não existe meio termo nem rótulos ou convenções. Afloram bem suas emoções, vivem sempre nos extremos. Dizem "te amo" tão comumente como dizem "te odeio", e quando resolvem brigar, chegam a ser páreos para o "casal barraco". Choram, riem e se amam com a mesma voracidade de animais. Normalmente o sentimento que os une é forte e verdadeiro, podendo até ser confundido com uma grande amizade, mas a realidade é que um casal "porra-louca" não consegue ir muito longe na relação. Afinal, chega uma hora em que os relacionamentos necessitam de um pouco de "normalidade" para fundarem suas bases, algo que esse tipo de casal prefere continuar a desconhecer.

8. Casal "muleta":
temos aqui um tipo de casal que se estabelece mais pela necessidade do que pela troca de sentimentos. Um exemplo de casal "muleta" poderia ser o caso de dois solteiros encalhados, que cansados da solidão resolvem ficar juntos. Dessa maneira, eles se apoiam um no outro, como verdadeiros encostos. Mas não é de necessidades iguais que um casal "muleta" se mantém. Geralmente alguém com alguma certa desvantagem (seja ela emocional, afetiva, fincanceira, social, etc.) procura um oposto, para enfim suprir essas necessidades. Isso não deixa de ser um tipo de interesse, mas normalmente o caso é mais velado. Não se trata de uma pessoa que está com a outra apenas por dinheiro, por exemplo. Ser "o dependente" na relação é o fator mais explícito. No caso desse tipo de casal, um dos lados nunca está bem emocionalmente consigo mesmo, por isso procuram alguém para serem seu(sua) psicológo(a)/financiador(a)/pai/mãe de plantão, ao invés de efetivamente alguém para compartilhar seus sentimentos. Como nesse tipo de casal a dependência de um dos lados é sempre gritante, quando o relacionamento vem a acabar, o lado "apoiado" sempre cai e demora para se levantar. Fatalmente, o destino desses casais é sempre o fim, pois não se esqueçam que as muletas só podem ser sustentadas pelo o apoio de dois braços fortes.

9. Casal "arrasto": poderia ser um tipo de "casal muleta", mas o esquema aqui é que um lado é o destaque e o outro o apagado. Ninguém consegue entender como aquela pessoa inteligente/bela/engraçada/bem humorada/boa de cama/etc namora aquela coisa sem graça e sem atrativo algum. Eles geralmente são vistos juntos, mas sempre são focados em planos diferentes. Enquanto um sempre será o protagonista da cena, a outra pessoa não servirá nem para a figuração. Assim, esse casal leva seu relacionamento com um lado sempre arrastando o outro. Como eles estão juntos é mais um mistério da humanidade, e se eles vão durar deve ser mais um Segredo de Fátima. Às vezes o relacionamento termina porque quem "arrasta" não consegue ceder as tentações de coisas melhores em seu caminho, ou então, porque quem é "arrastado" não suporta as diferenças óbvias. Porém para nossa surpresa, às vezes a situação de superioridade/inferioridade é tão bem resolvida entre o casal, que eles seguem nesse trote por um bom e longo período.

10. Casal "marido e mulher": não, isso não é uma redundância, apesar de parecer. Esse tipo de casal é aquele que não precisa do casamento para viverem uma relação funcional e de submissão. Ela pode simplesmente gostar da posição de submissão histórica da mulher sob o homem, e ele achar isso o máximo. O machismo impera nessa relação (não se esqueçam que também existem mulheres machistas!). Mesmo que sejam namorados de dias, ela já assume posturas como cozinhar para ele, além de influenciar no seu modo de se vestir e de se comportar. Propositalmente, é claro. Ele por sua vez, achará o máximo que sua namorada não sai de casa sem sua permissão, e que está sempre a sua disposição, até para lavar suas cuecas! Ambos vivem o relacionamento por pleno comodismo, e normalmente suas rotinas são bem monótonas. Tornam-se um casal sem assunto, amigos, perspectivas e às vezes até sem sexo, já que a o dia-a-dia da relação já se moldou a inércia deles, tal como suas bundas no sofá da sala. E ela seguirá bordando ao seu lado, enquanto ele assiste futebol na TV aos domingos. Se tudo der certo, um dia com 80 anos, olharão para a cara um do outro e verão que nunca quiseram outra vida além da que tiveram. E se perguntarem se foram feliz, talvez dirão que a felicidade não existe, mas pelo menos "criaram bem os filhos e viram os netos crescer". (Me borrei de medo agora! Nenhum filme de terror poderia ser mais tétrico do que uma vida assim! Vamos logo para o próximo perfil...)

11. Casal funerária: falando de coisas tétricas, esse tipo de casal é um bom exemplo. Um "casal funerária" é aquele tipo em que as pessoas estão sempre com cara de velório, cabisbaixos como se tivessem saído de um enterro. Ninguém consegue entender o porquê que eles estão sempre com aquelas cara de orifício retal, mas ao que parece, é sempre e unicamente quando estão juntos e na frente dos outros. Normalmente, quando estão separados, para a surpresa da maioria, eles riem e se divertem como pessoas normais, mas basta se encontrarem para fecharem as caras como defuntos. Os amigos já não sabem se vale ou não a pena convidar o casal para um programa, pois sabe-se lá qual o problema daqueles dois! Além disso, entre eles, nunca há conversas, cumplicidades, beijos ou abraços. Nem ao menos brigas! No máximo uma aterrorizante troca de palavras do tipo "conversamos depois". Estão sempre de mal um com o outro, e nunca conversam com ninguém sobre a relação. Assim, ninguém entende como podem durar tanto tempo juntos, mas que há algo de sobrenatural naqueles dois, isso certamente há...

12. Casal detetive: quando os costumeiros ciúmes de cada relacionamento viram desconfianças, paranóias e obsessão, a ponto de um dos membros do casal perseguir o outro pelas ruas sob disfarces, checar suas chamadas telefônicas de minuto em minuto e ter o hábito de revistar bolsos e bolsas a procura de provas incriminadores, estamos diante de um casal detetive. Um casal detetive não é feito de ciumentos escandalosos, como vimos no "casal barraco". Aqui a desconfiança impera excessivamente na relação, a ponto que nesse casal, um membro está sempre na cola do outro, mesmo que sutilmente. Quando esses colocam alguma coisa na cabeça, principalmente que estão sendo traídos, ninguém irá conseguir os acalmar enquanto a verdade não vier à tona. E não adianta os amigos argumentarem que tudo é paranóia da cabeça deles! Não! No casal detetive, um membro está sempre investigando o outro, checando suas contas de e-mail, Facebook, Orkut e outras redes sociais (pelas senhas que eles conseguiram clandestinamente), marcando cada passo que o outro dá. Criam fakes em MSN e adicionam o namorado(a) só para tentá-los e "desmascará-los". Evidentemente, uma relação baseada em desconfiança não vai muito longe, mas tratando-se de um casal detetive, nunca duvide de seus feitos. Afinal, todos são suspeitos, principalmente a pessoa com quem você se relaciona.

13. Casal modelo (ou "casal perfeitinho", ou ainda "casal 20"): aquele típico casal de filme de Sessão da Tarde; belos, perfeitos, admirados e invejados por todos. E como se imagina, eles são irritantemente insuportáveis de tão "perfeitinhos"! Ele e ela são respectivamente sonhos de consumo de muita gente, mas por graça do destino, se encontraram e se apaixonaram. Viraram o "casal 20", já que individualmente cada um é nota 10. Como um "casal vitrine", eles são o auge das atenções e comentários, mas fazem isso naturalmente, sem forçar barra nenhuma. Até porque eles são perfeitamente discretos. Muitos suspiram, desejando um dia poder ter uma relação tão perfeita como a deles. Outros os odeiam, porque aquilo ali já começa a ser uma distorção de realidade. Mas normalmente eles ficam juntos, se casam, enriquecem e vivem felizes para sempre. Evidentemente, você não consegue imaginar uma vida tão perfeita, por isso torce para que ela seja frígida e ele brocha. E que ambos tenham taras secretas, como defecar um em cima do outro... (Hahahaha...)

14. Casal fantasma: seu amigo te jura que tem namorada, sua amiga diz que encontrou o homem da vida dela, mas na hora de conhecer a (o) dita(o) cuja(o), cadê a criatura? Os amigos nunca viram ele(a) acompanhado(a) com a pessoa, mas se conferirmos seu Facebook, veremos que há o status de um "relacionamento sério" marcado. Quando você pergunta: "tá, mas cadê teu(tua) namorado(a)?" a resposta sempre varia entre "ele(a) mora em outra cidade" ou "ele(a) é muito ocupado(a) e não tem muito tempo". Às vezes você até desconfia da credibilidade do(a) seu(sua) amigo(a), mas ninguém poderia sustentar uma mentira daquelas por tanto tempo e com tanta fidelidade em suas palavras. No final você chega a conclusão que se trata de um casal fantasma, pois um ali está sempre em espírito na vida da pessoa. O irônico é que esses casais duram mais enquanto afastados da presença física um do outro, do que propriamente na convivência do dia-a-dia. Isso sim é algo fantasmagórico...

15. Amizade colorida: bem, não é propriamente um tipo formal de casal, mas se pararmos para pensar, esse tipo de relacionamento é às vezes mais consistente do que centenas de casais que andam por aí. Dois amigos podem perfeitamente ter uma relação paralela, sem cobranças, com cumplicidade, troca de sentimentos, sexo e todos aqueles acessórios básicos de casais, e ainda cultivarem uma amizade verdadeira. Ao extrairmos ciúmes, cobranças, rotina e obrigações comuns dos casais, essa espécie de relacionamento pode ser realmente benéfica para as partes envolvidas. O problema é justamente quando as coisas começam a passar dos limites da amizade, pois é muito difícil manter esse tipo de relação sem um envolvimento a mais. Ciúmes e cobranças podem demorar para pintar nessa relação, mas uma hora ou outra elas vão aparecer e manchar o que era colorido antes. Por isso vale o conselho: se você não quer um incêndio, não comece riscando o primeiro fosfóro...

16. Casal "água de salsicha": um casal "água de salsicha" é aquele tipo que vive a inexperiência de um relacionamento justamente por sua falta de maturidade e auto-conhecimento. Seria mais interessante eles crescerem primeiro antes de resolverem começar um relacionamento. No entanto, sabe-se lá porque cargas d'água eles resolveram entrar nesse campo minado, já que eles mal sabem limpar suas bundas sozinhos. Esse tipo de casal é facilmente reconhecido, porque quando juntos, eles são inertes e atônitos, e não fazem nada demais. NADA demais mesmo! Se para eles segurarem as mãos já é um parto, para darem um beijo então, é como uma cirurgia de remoção de um tumor no cérebro! Se isso acontece, é sempre às escondidas. Sexo? Psssss... nem com banda de música e com os números da Mega Sena! Como vocês notaram, um casal "água de salsicha" tende a ser um casal jovem, com seus 13-14 anos, mas acreditem, existe uma boa velharada que age assim... Normalmente esse tipo de casal é desacreditado pelos outros, e nunca vão muito adiante com essa história. O título desse casal vem justamente porque quando você olha para eles, não vê muita coisa na cabeça deles além de "água de salsicha"...

sábado, 31 de julho de 2010

"E se der certo?"

Recentemente fui abordado por uma amiga, leitora do blog, que fitou meus olhos escondidos sob a carapuça amarrotada de papel, e sem hesitar me sentenciou com uma indagação: "E se der certo?". Eu obviamente não esbocei expressão alguma. Como se precisasse. A menina logo seguiu sua argumentação. Disse que gostava das minhas crônicas, achava-as engraçadas, etc e tal, mas que tudo o que ela lia aqui, tratava-se de frustrações, decepções e outras coisas dignas de cortar os pulsos com a faca de serrinha suja de maionese. "Coisas que não deram certo", enfatizava, "nem sempre os relacionamentos são assim".

Expliquei a ela, que sempre foi o objetivo das "Crônicas do Sr. Apêndice" falar das emblemáticas situações desastrosas dos relacionamentos pelo viés do bom humor, sarcasmo ácido e até mesmo por ironias clichês. Uma maneira de rir para não chorar. Ela concordou com cada palavra que disse, atenta como um falcão caçando um rato da pradaria, mas ainda assim repetiu a fatídica pergunta: "E se der certo?"

Por ora deixei no vácuo. Dei de ombros, disfarcei, mudei de assunto e fui buscar uma cerveja. Dois dias depois, estou conversando com um amigo, e para minha surpresa, a mesma inquietação me foi arremessada diante das minhas convicções teóricas. Tentei repetir o discurso. Porém, meu amigo, muito sutil como um rinoceronte sambando em cima de um telhado de zinco, basicamente mandou minhas resoluções, resignações e filosofias acerca das dores de cotovelo mundanas a PQP. Segundo suas concepções, um tanto revoltadas com minha pragmática, que grande sentido existiria no mundo dos relacionamentos se não fosse o objetivo de "dar certo". Ele mesmo, num tom quase drástico, beirando à uma desilusão suicida, disse que já vislumbrava um futuro para ele com apenas uma mulher. Estava cansando dessa história de farra, pegação, troca-troca, putaria e o escambau.

Tudo o que ele queria era a certeza de uma, apenas uma, guria legal, que dividisse uma coberta e uma taça de vinho numa noite fria de sábado, e o tédio amarelado de uma tarde vazia de domingo. Obviamente, me segurei para não mostrar o quão febril suas perspectivas poderiam estar. Sabem como é, todo mundo tem o direito de falar bobagens como se fossem verdades, até porque, enquanto às coisas não viram realidade, até mesmo a lorota da injeção de graça na testa vira a máxima dos pretextos para entramos em qualquer furada. Mas duvido que alguém realmente queira uma injeção na testa, ainda que de graça. Digo o mesmo para a rotina estática e monótona dos relacionamentos. Mas tudo bem, vamos lá de novo: "E se der certo?"

Depois dessas abordagens, fui obrigado a fazer uma reavaliação de conceitos, ir ao fundo do meu consciente. Tal atitude em certas pessoas às vezes é tão escatológica quanto um exame de fezes. Comigo não foi diferente. Ao me defrontarem com o "dar certo", fiquei pensando se as pessoas não estavam me vendo como o nêmesis dos relacionamentos. Por favor, pessoal! Nem tenho ego ou potencial para tanto! Além do mais, acredito mesmo que os relacionamentos possam dar certo, tanto quanto acredito que a Globo não se aproveita dos lucros do Criança Esperança e que a liberação da maconha teria apenas fins medicinais como justificativa.

Assim, reflexivo como um monge tibetano, vaguei dias titubeando sobre a razão do "dar certo". Afinal, por mais desesperado que meu amigo parecesse, e mais convicta que minha amiga se mostrasse, ambos tinham razões suficientes. De nada adiantaria embarcarmos nos tais relacionamentos se não acreditássemos mesmo em um desfecho bem-sucedido para eles. Até mesmo porque, o "dar certo" não é uma questão de resultado, e sim de crença. E de motivação, logicamente.

Em nossas vidas, podemos encontrar inúmeros exemplos daqueles que acharam sua metade da laranja e vivem felizes em seus mundos a dois, e se bobear, na mesma quantidade dos casos infelizes (e por várias vezes, alarmantes) daqueles que sofrem por serem sempre os bagaços cuspidos dos relacionamentos. Mas como somos seres humanos, condicionados a admirar a desgraça dos outros (Datena e Márcia Goldsmith que o digam), normalmente ficamos focados aos infortúnios ocorridos. Assim, alguns calejados pelas desilusões amorosas já encaram certos começos pelo o fim, e começam a eliminar pretendentes apenas por características aparentes e semi-óbvias. (Não duvidem de relacionamentos que não começaram porque a criatura era de um signo do Ar e tinha Mercúrio na Sétima Casa...)

Mas nem sempre as banalidades, casualidades, ou até mesmo os infernos astrais servem para destroçar as possibilidades dos relacionamentos. Muitas vezes eles encontram um modelo de funcionalidade e seguem firmes na luta. Sim,
funcionalidade! (E espero que o termo não choque ninguém!). Por mais que esteja dissertando sobre as probabilidades de uma relação dar certo, não ficarei exaltando arroubos de "finais felizes" ou de "mar de rosas". Tudo na realidade, gira em torno de uma questão das coisas funcionarem, das maneiras como as pessoas e seus jeitos, hábitos e defeitos se encaixam. Na verdade, abusando da filosofia barata de boteco, o "dar certo" tem haver com duas espécies de aceitação: 1) aceitar o outro(a) como ele(a) é; e, 2) aceitar a realidade de vida de ambos. Ou seja, tudo se baseia em entender, ou melhor, perceber como o outro é, e enquadrá-lo dentro da sua realidade vigente. Fazer a coisa funcionar é antigir o o tal "dar certo".

Estou complicando? Calma, calma, o titio Apêndice explica. Pensem comigo; você gosta da pessoa, o suficiente para ter sentimentos de completude e paz de espírito com ela. Tudo indica que ali às coisas podem dar certo. No entanto, como em tudo na vida, há detalhes nas cláusulas da pessoa que você gostaria de rever. Você não suporta aquele jeito pessimista dela encarar a vida. Detesta quando ele(a) se acha na razão sobre tudo. Enerva-se sempre que ele(a) te compara com o(a) ex. Aí vem o momento crucial do pretenso relacionamento seguir rodando suas engrenagens. Querer que tudo dê certo é o suficiente? Quais as medidas a serem tomadas nessas circustâncias? Na verdade, é difícil encontrar um eixo para isso. Mesmo assim, metodologias para encararmos a barra não nos faltam.

Costumamos recorrer ao famoso "colocar na balança", mas isso nem sempre é algo adequado, pois infelizmente, para várias coisas da vida, incluindo o coração, não sabemos pesar nem medir. Podemos dispensar alguém em nome de uma mania compulsiva, e depois sentir o golpe em nosso plano sentimental. Também costumamos engolir sapos, tudo em nome da salvação da relação. Porém, ficar acumulando tudo, como um balde de baixo de uma goteira, é loucura digna de internação em um manicômio daqueles fétidos, cheio de loucos com a cabeça raspada e migalhas de bolacha no canto da boca (você já assistiu o filme "Bicho de Sete Cabeças"?). Ainda resta a insensatez de tentar mudar o outro, atitude normalmente sem sucesso nesses casos. Agir dessa maneira insistente e intransigente é assumir um papel desses loucos do manicômio que acabei de citar.

Mas saber conviver e lidar com os defeitos do outro, abrindo mão ali, arregalando os olhos acolá, contando até 10 de vez em quando... bem, isso significa encarar a realidade em nome de um propósito maior. Ah, você não tem saco nem paciência para isso? Sinto muito, mas então nem tente entrar nessa onda do "dar certo". Relacionamentos são exigentes. Afinal, isso faz parte do adaptar-se e evoluir, tão lembrado pelo titio Charles Darwin. A vida é um credor implacável que faz o SPC parecer coisa de criança. E isso não é nem de perto exclusividade dos relacionamentos. Ainda têm os créditos das relações familiares, dos empregos, compromissos e etc e tal. Frente a tudo isso, intolerâncias e birras são tentadoras, afinal, somos humanos, assustados e mesquinhos com o mundo desde o dia em que saímos das entranhas maternas. Não é por menos, que são poucos que tem vocação para ser uma Madre Teresa de Cacutá.

Por isso, volto a bater na tecla de que o "dar certo" não é um final de novela do Manoel Carlos, na qual todo mundo é feliz e termina rindo e com um bebê no colo. Também pode estar bem longe daquelas cenas de "terceira idade perfeita" ("eles tem 70 anos de casados e ainda são malabaristas na cama..."). Não! O dar certo às vezes pode ser conferido pelo tombamento de um relacionamento de anos, no momento em que uma criatura olha para a outra e diz: "não dá mais". Aí a outra, ao contrário do que se pensa, simplesmente diz: "é... não dá mais mesmo!
Já deu certo o suficiente..." Depois eles ficam amigos e curtem suas vidas tranquilamente. Vejam como assim tudo funciona, como um intestino depois de uma semana tomando Activia. Mas não é por essas que a vida se encaminha?

Você não tem o carro dos sonhos, mas o seu funciona bem para suas necessidades. Ele anda, te leva de cima para baixo, consome pouca gasolina, tem um IPVA aceitável, e ainda serve de motel de vez em quando. Veja o seu emprego! Evidentemente ele poderia ser melhor, você poderia ganhar mais ou ser mais valorizado nele, porém, ele paga suas contas e te faz sentir-se útil em algo. Bingo, mais um exemplo de funcionalidade. Então, não estaria bom um relacionamento simplesmente para cumprir suas funções, e ser o que em essência todos se propõem a ser, ou seja, uma "relação entre duas pessoas"? Par "dar certo" não precisamos pensar necessariamente em uma história de amor de trama complexa e enredo épico, cujo vilão é derrotado no final, ao alto de um penhasco, e o cavaleiro de armadura brilhante salva sua donzela e cavalga em rumo ao sol poente. Por favor! Se quer drama e romance, assista qualquer novela mexicana chinela que o SBT vive a reprisar. É nessas horas que os simplistas por natureza ou o pessoal que frequenta praias de nudismo saem ganhando: "às vezes, menos é mais..."

Ok, mas a essa altura do campeonato vocês devem estar se perguntando: "mas então, o dar certo tem a ver com conformismo, comodismo e essas coisas assim, que rimam com domingos amarelados?". E eu respondo: sim e não. Tudo depende também do quão camarada o destino pode ser contigo. Ter sorte com certeza faz a diferença para um relacionamento dar certo, assim como em tudo na vida. Mas por ora não se preocupem tanto em buscar essas respostas existenciais ou métodos para uma relação vingar. Preocupem-se com coisas mais simples, como a Declaração do Imposto de Renda ou a prova do ENEM.

Saibam nas entrelinhas necessárias, que o que vocês podem fazer para a dar certo emerge de uma batalha diária contra a rotina e contra as adversidades inevitáveis da vida a dois - o que significa que tudo é variável. Você pode se estressar com a maneira que a outra pessoa masca chicletes ou com suas opiniões políticas, tudo sempre vai depender do autoconhecimento profundo e do esforço constante e estóico daqueles envolvidos na relação. E claro, vale o lembrete clichê: "não basta apenas um querer, para que dê certo..."

No final das contas, o "dar certo" pode ser sempre desvalorizado ou desacreditado por muitos, mas ele nunca será renegado por ninguém. Ele sempre será, mesmo que distante, um objetivo a ser atingido. Para o amor, nada é mais heróico (e insano, claro!) do que pessoas vivendo à procura do outro(a) com o poder de fazer tudo dar certo, e assim, encontrar o sentido da tão almejada felicidade. E por mais absurdo que isso pareça ser, o mundo está cheio de seres que fazem isso todos os dias, e continuam a persistirem inúmeras vezes em busca de sua tampa da panela.

Então, o tal "e se der certo?" não pressupõe respostas. Seja da maneira que for, pelo destino, insistência ou resistência, os relacionamentos acham suas entradas e saídas por si mesmos. Um brinde ao "dar certo", que dá esperanças aos desiludidos do amor, forças aos rejeitados, inspiração aos apaixonados e até mesmo curiosidade aos solteiros convictos. Pois, a despeito de tudo o que digam, há mesmo uma beleza monocromática em um casal desfilando de mãos dadas pelas ruas, crentes que tudo dali para frente pode dar certo para sempre. (Estou me segurando para não rir desse final açucarado, mas juro que não debochei...)