segunda-feira, 4 de março de 2013

Tudo de novo


Acabou mais um ano. Começou outro. Tudo de novo. 



 - Ei, mas como assim? É março! Já faz dois meses que o ano começou?!!! Está atrasado – para variar – Sr. Apêndice!

Não. O ano DE VERDADE começa agora. É agora que as doces ilusões que nos foram concedidas enquanto estávamos exilados da rotina – mesmo dentro da rotina, diga-se de passagem – acabam. Falando em um lenga-lenga menos filosófico: acabaram as férias, foi-se o verão. Chegaram as cretinas águas de março (perdoe-me, Tom Jobim).

Repetindo: acabou. Vamos ao tudo de novo. Seja bem-vindo - com um sorriso amarelo e cheio de hipocrisia – março; apresente-nos seu amigo ano novo, já que seus irmãos janeiro e fevereiro falharam em tal introdução. Seja bem-vinda realidade – acordar cedo, trabalhar, estudar, fazer tudo em um processo mecânico e repetitivo até dezembro, o mês super-herói que vem para nos resgatar do cotidiano sufocante.
(Aliás, gostaria de manifestar aqui minha antipatia ao mês de março. Eu odeio março! Detesto março tanto quanto detesto domingos. E se pararmos para pensar, se um ano fosse uma semana, março seria o domingo.)

Mas acho que o “tudo de novo” que me angustia no momento não é a rotina artificial que tentamos sem sucesso evitar ou adiar - já que o mundo amanhece e anoitece desde os primórdios da existência. Minha estreiteza na realidade é uma alegoria para tudo que a vida – em especial, ao que tange os sentimentos – nos reserva. Querendo ou não, todo recomeço nos evoca novas esperanças.

Caso não tenham entendido, falo daqueles montes e montes de promessas e coisas que precisam acontecer no ano que começa para haver sentido em um novo começo. Amores.  Esperanças. Felicidades. Inícios. Fins. Sentimentos. Sentidos.  Senão, para que todo aquele porre de champagne na madrugada do dia 1º de janeiro? Mais uma ressaca gratuita? (E enfatizo mais uma vez: o reveillon deveria ser em março!)

Agora nada mais que rime com "fim" faz sentido. O mantra agora é “começo”, “início”, “recomeço”, “vida nova”, “volta às aulas”, “volta à rotina”. Ora, nem o mundo que ia acabar, – conforme nos encheram o saco durante 2012 inteiro – acabou. O tal e prometido fim do mundo não veio, o que não é algo que se constitui propriamente em um problema, pois daqui a pouco a Discovery Chanel já vai arranjar uma maneira de acabar com ele de novo (terremotos, invasões alienígenas, profecias Maias, apocalipse zumbi, Gustavo Lima e você – qual vai ser a próxima bomba fica a critério do próximo Globo Repórter).  Então apocalípticos de plantão, relaxem. Daqui a pouco alguém descobre mais uma profecia escondida do Nostradamus e o mundo já acaba de novo.

O carnaval, nossos festejos da carne, época de expurgar nossos demônios anuais com porres e putaria mal chegou e já se foi. Aqueles dias infernais (nos dois sentidos!) de batucada, axé, marchinhas e samba nos ludibriaram como sempre, nos fazendo quase acreditar que não haveria realidade após a quarta-feira de cinzas. Agora só nos resta esperar o próximo feriado para nos recuperarmos ainda do estrago que o carnaval nos fez (nossos fígados, neurônios, corações e finanças que o digam).

De qualquer forma, o binômio começo/fim nos visita mais uma vez, com o intuito de nos assombrar e esperançar que no final do túnel há sempre a esperançosa luz para nos acenar que “calma, tudo há de dar certo ainda, mesmo que nunca tenha dado”. É como se fosse um tapinha nas costas do destino, nos dizendo “vamos lá, você ainda tem mais uma chance”. E assim rolamos os dados nas inevitabilidades do caos, nos agarramos nas crinas da sina em mais uma galopada da vida. Com o cronômetro zerado, percebemos que mais um ano vindouro - na realidade,  apenas mais um dia que vem – é mais uma aposta desesperada na loteria da felicidade eterna. Nesse ponto, a esperança, mais recauchutada que pneu de beira de estrada, se torna uma instituição, uma crença necessária para que o mundo não vire o apocalipse ou fim do mundo que mencionávamos antes.

Precisamos acreditar. Dependemos disso. Se não são começos, pelo amor de Deus, que sejam recomeços! O fim, de tudo - mundo, corações e ilusões - vai ser sempre aquela sombra a nos perseguir. Faz parte da nossa condição cíclica, da vida dando lugar a morte, para que dê lugar a vida de novo. Vem amores, vão paixões. Vem decepções, vão ilusões. Vem tentações, vão traições. Vem vida, vai vida. É assim.   Fôlego, vamos lá. Até mesmo porque o tal sentido que procuramos nos sites esotéricos é esse. Então todos aqueles sorrisos bobos, lágrimas ardidas, taquicardias de ânsia e raiva e as tais mariposas no estômago - ou seriam borboletas? – e a velha ressaca de viver intensamente, ainda vai ter que valer a pena. Façamos isso. Caso contrário, vamos escrever uma letra de pagode, porque assunto e inspiração não nos falta (te cuida, Raça Negra!).

Ok, mas sejamos sinceros: haja saco. Sim... saco são esses recomeços que terminam sempre! E na boa, às vezes a culpa nem é nossa por crermos nas possibilidades vindouras. Faz parte de nossa essência acreditar e valorizar tudo que é novo. Sejamos francos: se usamos uma roupa nova para uma ocasião especial, não seria diferente em usarmos esperanças novas para um novo começo de ano. Tampouco, não é nada estranho acreditarmos que uma nova paixão é uma nova chance que a vida nos dá para sermos felizes nesse quesito.

Expectativas e ilusões são entorpecentes difíceis de se dizer “não”. Acreditamos e renovamos nossas esperanças tantas vezes com uma fé tão própria de nossa condição humana, tão desprovida de quaisquer coisas negativas, que na boa, dá vontade de mandar a vida tomar no rabo por não nos dar uma aliviada! Confiamos no mesmo passo em que somos desiludidos, tanto que acho que a vida deveria nos pedir perdão de vez em quando, só para inverter a ordem das coisas.

Por isso aceitaremos a rotina de novo. Por isso vamos sorrir e suspirar para o cotidiano que vai nos arrastar impiedosamente durante todo o ano que acabou de começar, mas que por ora ainda está rançoso como uma grande segunda-feira. Paciência. Daqui a pouco já estaremos tão robotizados dentro dele, que mal perceberemos que ele tinha começado algumas horas atrás. E por que definitivamente não viramos as máquinas, numa perspectiva Matrix de ser? Porque teremos toda aquela jornada sentimental, de ilusões e desilusões, risos e choros, inícios e fins para nos distrairmos entre um domingo e outro. É isso que nos torna humanos, que nos faz acordar toda segunda-feira de manhã às 6 horas em ponto, esteja ele nublado ou não. Nós não podemos parar, para que a vida também não pare.

Então, seguindo e quebrando o praxe dos reveillons: feliz ano novo. Feliz março. Feliz segunda-feira. Que tudo se realize. Um brinde, sobretudo à vida, que não para – graças a Deus, pois daqui a pouco é dezembro de novo... 


domingo, 21 de outubro de 2012

Volta por baixo

Sr. Apêndice é encontrado mendigando pelas ruas. Mistério do desaparecimento do cruzado dos relacionamentos amorosos finalmente chega a uma dramática resolução. Desiludido, ele confessa: “já mendiguei amor, hoje me contento com meio x-salada”.  Confira tudo nesta impressionante reportagem.

O ano era 2010 e um curioso blog surgia na blogosfera. Intitulado “Crônicas do Sr. Apêndice”, o blog escrito pelo homônimo e misterioso Sr. Apêndice era um destilado ácido e agridoce das eternas indagações sobre os relacionamentos amorosos. Descrito pelo próprio autor como um lugar de “encheções de sacos amorosas”, o blog não poupava ninguém com tiradas críticas e bem humoradas das (des)ilusões amorosas, que iam desde abordagens cotidianas até questionamentos existenciais.

No entanto, desde 12 de junho de 2011 - data da última crônica postada - o blog encontra-se abandonado, sem nenhuma manifestação de seu autor, fato que suscitou a curiosidade e aflição de seus leitores. Muito se especulou sobre o sumiço do Sr. Apêndice; uns afirmavam que ele finalmente cansou da sua eterna e infecunda cruzada contra os relacionamentos amorosos, engordou e estava apostando todos os meses na Tele Sena; outros juravam que ele finalmente se apaixonou e alterou todas suas perspectivas sobre o assunto; e ainda havia alguns teóricos da conspiração que asseveravam que o ensacado personagem era uma fraude do sistema, usado por uma fábrica de chocolates à beira da falência a fim de vender bombons aos deprimidos leitores.

Porém nada disso era verdade. Após uma decepção amorosa “das brabas”, conforme suas palavras, o Sr. Apêndice literalmente surtou. Após tentar se internar várias vezes em uma clínica de reabilitação para drogados, com o intuito de se livrar do pior narcótico do mundo, a paixão não correspondida, ele foi jogado a própria sorte e saiu a vagar sem rumo pelo mundo. Durante mais de um ano, ele tem vivido em sarjetas, construções abandonadas e calçadas, entregue à piedade alheia para poder sobreviver. “Quando fui tentar me internar não fui aceito, porque, segundo os psiquiatras, paixão não era uma droga”, revela o Sr. Apêndice, um ano depois do seu desparecimento do blog. “Me disseram que meu problema era falta de ocupação, que um coração vazio se curava com uma enxada nas mãos”.

Visivelmente mais magro, sujo e abalado, o Sr. Apêndice foi encontrado esta manhã em um terreno baldio, trajando trapos, enrolado em um cobertor velho e deitado sobre pedaços de papelão. Entre seus pertences, uma garrafa vazia de vodka barata e uma cópia amarrotada de “Mulheres”, do autor americano Charles Bukowski. “O quê? Pensaram que eu lia sonetos de amor do Shakespeare?” – bradou a criatura encapuzada ao ser questionado sobre sua leitura. “Limpei meu rabo com Romeu e Julieta esses tempos” – debochou desconcertado.

Sobre sua situação atual de miséria, consequência da sua fuga do blog e do mundo, o Sr. Apêndice foi impreciso: “sabe como são às coisas; às vezes você tem um tesão pré-adolescente pelos seus feitos, outras tudo parece uma bobagem. Foi assim comigo, uma hora eu percebi que o mundo e os relacionamentos não eram tudo aquilo, que eles não iriam mudar e que tanta “encheção de saco” só servia para encher o saco mesmo! Além do mais, eu precisava arejar as ideias. Saí para comprar cigarros no boteco da condição humana e nunca mais voltei. Até porque eu não fumo mesmo.”

Segundo o Sr. Apêndice, o vácuo teve seu aspecto positivo em suas reflexões. Nessa temporada, isolado e sem-teto, ele se permitiu a reconsiderar alguns pontos de vista. “Não quer dizer que os culpados sejam os próprios relacionamentos amorosos. Eles sempre vão ser complexos e confusos, seguindo aquela eterna mística de contradições e expectativas. O que ferra mesmo é a realidade, essa representada pelas pessoas que expõem seus sentimentos umas às outras. No final das contas, talvez culpar a existência e a sorte seja o mesmo que mijar em incêndio – o complicado são as pessoas mesmo” – e indaga, “e aí, o que se faz quando tudo no mundo dos relacionamentos gira em torno de pessoas? Se apaixona por uma árvore? Convida uma poltrona para ir janta à luz de velas?” Por fim, enfatiza:“A não ser que você seja um pansexualista ou monge tibetano, você está preso no jogo. E esse jogo é muito tenso, sobrecarregado de pressões que deixa vestibular de medicina na USP igual a teste de pré-escola, e final de Brasileirão igual a futebol de fim de semana de campinho de várzea. É um mundo de histórias, dramas, desesperos, perdas, músicas pops de dor de cotovelo e filmes com a Kate Hudson que fazem da humanidade uma colcha de retalhos que só serve para te sufocar ao invés de te cobrir. É como me disse um outro mendigo esses dias, ‘tira o ser humano da Terra e tu vais ver a beleza de mundo que fica’”.

O Sr. Apêndice se negou a dar detalhes da sua última e fatídica decepção amorosa, virtualmente a causa pelo estado deplorável que se encontra. Em uma tosse carregada, ele apenas balbuciou a seguinte sentença: “vou começar a evitar certos signos”. Quanto ao futuro, ele ainda diz que é complicada uma nova perspectiva de vida, apesar de se assumir mais racional e distante de tais incômodos, mas dá um recado aos leitores, bem-humorado como é de seu estilo: “agora que me acharam, vou ter que voltar de um jeito ou de outro; até porque não aguento mais jogar canastra com esses ratos aqui no banhado. Além disso, os FDP já estão de olho na minha casa de caixa de papelão de geladeira Consul há um bom tempo”. Em sua nova fase no blog, além dos conhecidos debates sobre os relacionamentos amorosos, também haverá espaço para críticas ao cotidiano e escarradas ácidas na condição humana, às vezes em forma das tradicionais crônicas, outras por meios de contos, ensaios e até, quem sabe, por meio de alternativas multimídias, como vídeos e podcasts. O blog também contará com uma página no Facebook. Porém, mesmo com as novidades, o Sr. Apêndice sentencia: "mas não se animem muito. No final das contas acho que vai dar a mesma merda de sempre".

Questionado sobre algum desejo imediato, o Sr. Apêndice foi sintético: “quem vive sem um apêndice sabe viver sem qualquer coisa vital, mas se vocês puderem me dar uns 10 pila para eu comer um xis ali no trailer da esquina, eu agradeceria. Já mendiguei muito amor nesta vida, mas hoje em dia me contento com meio x-salada”.
  
 
Fotos: Isabella Maciel Heemann




 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Crônicas do Sr. Apêndice (Teaser do Blog)

O Sr. Apêndice está de volta. Assista ao teaser de reestreia do blog:



Mas o que teria realmente acontecido com o Sr. Apêndice? Qual seria a explicação para seu misterioso sumiço? Confira em breve (muito em breve mesmo!), aqui neste blog, por onde andou o Sr. Apêndice nos últimos tempos.

Ah, e agora o blog tem uma página no Facebook. Dê o seu "curtir" para o Sr. Apêndice.

http://www.facebook.com/cronicasdoapendice 


sábado, 11 de junho de 2011

Namoro de ocasião

Uma crônica em "homenagem" ao Dia dos Namorados


Como qualquer data comercial, o Dia dos Namorados também é um dia cretino. Aliás, talvez a mais cretina de todas as datas em que você é forçado a comprar um presente. O Dia dos Namorados ganha até do Natal e da Páscoa em termos de data mais cara de pau do calendário. Sim, pois a questão desse dia não é desejar "paz ao mundo aos homens de boa fé" e comer peru com aqueles parentes insuportáveis, muito menos se entupir de chocolate só porque Cristo ressucitou pelo enésima vez em um domingo. Não.

O Dia dos Namorados é pior. Ele é mais vil, pois além de nos incutir a obrigação moral de comprar algum presente ridículo e brega (como aquelas almofadas de coração com bracinhos com o escrito "Te amo um tantão assim"), ele dissemina um pseudo-senso de romantismo exacerbado nas criaturas ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre nossa condição de seres carentes/necessitados/solitários/abandonados/infelizes, etc.

É incrível, mas mesmo aqueles que se dizem alheios ao assunto acabam cedendo de alguma forma para a "importância" da data. O Dia dos Namorados consegue a façanha de incomodar até os solteiros convictos e os niilistas de plantão, que mesmo no alto de seu desdém romântico, ainda se importam em emitir pareceres indignados quanto ao dia 12 de junho.

No entanto, para o resto dos mortais, a data é sentida pelo peso que ela se propõe a ter. Para aqueles que namoram, o dia 12 tem o seu aspecto sacro. O ritual de comprar um presente, escrever um cartãozinho meloso, jantar um fondue e beber um vinho, e ainda ir para aquele motelzinho fazer um "papai e mamãe" faz parte do imaginário da data, e muitos colocam isso acima da própria importância da relação. Não importa se o namoro ande uma merda; dia 12 ele tem que dar rosas para ela não se sentir a pior pessoa do mundo. Dane-se se aquele casamento de 10 anos passa por uma crise abissal; na noite do Dia dos Namorados os dois vão sair para jantar em um restaurante caro e depois vão transar em nome da obrigação do rito. É eu sei, hipocrisia social mandou lembranças.

Mas como disse no início desta crônica, isso faz parte da cretinice da data, como é comum em todas as datas comerciais. Natal só é Natal porque o Papai Noel é o verdadeiro espírito capitalista e Páscoa só é Páscoa porque Jesus Cristo era chocólatra e fã do Pernalonga. Com o Dia dos Namorados é a mesma coisa. As lojas não penduram centenas de coraçõezinhos vermelhos em suas vitrines porque é o dia internacional do transplante cardíaco ou porque é dia de dizer àquela pessoa especial que você a ama. Óbvio que não. O esquema é o mesmo de sempre: compre e mostre seu amor em 6 vezes sem entrada no cartão.

Sim, pois muita culpa de nos sentirmos tocados por essa data vêm dos apelos comercias vida a fora. Você liga a TV e vê propagandas emocionantes de perfumes com casais perfeitos protagonizando cenas tenras de romance barato; abre o jornal e se depara com um ensaio sensual de lingerie com os dizeres do tipo "neste Dia dos Namorados abuse de sua sensualidade". Porra! A interpelação midiática chega a ser covarde! Por isso, mesmo que você não namore ou coisa do tipo, você acaba vivendo a data da mesma maneira.

Se você está solteiro, você é automaticamente apartado da data. Sim, pois todo mundo pode ganhar presentes no Natal, mas no Dia dos Namorados só quem namora. E todo mundo sabe como é um saco ver todo mundo abrindo presentes na sua frente e você não ganhar nada! A carência é irmã do egoísmo. Diante dessas circunstância, bate aquela revolta clássica contra a data. Surgem aquelas manifestações clichês: "eu não passo o 'Dia da Árvore' com uma árvore nem o 'Dia do Índio' com um índio, então por que eu passaria o Dia dos Namorados com um namorado?". Resposta: porque, não, porque você não teve competência para isso! Então, se vire e aguente as histórias de suas amigas no outro dia se exibindo de como foi maravilhosa a noite do dia 12 e sacudindo as quinquilharias que ela ganhou do namorado "perfeito". Mas não se encane com isso, provavelmente a ocasião não foi nada daquele filme romântico que ela narrou. É tudo uma questão de exibicionismo. (Aproveite e destile seu ódio e seu recalque nesta criatura, hahaha).

Mesmo assim, a grande maioria não entra nessa onda de revolta gratuíta. Muita gente cai na armadilha do namoro por ocasião. Ora, já que a data é cretina, vamos ser cretinos também. Dessa maneira, muitos promovem aquele rolo meia boca do fim de semana a um namoro sem ter a miníma e real vontade de namorar, só para não passar o dia 12 de junho "sozinhos". Ou então, aquela relação que está só se segurando pelos fiapos aguenta mais um pouco em nome da troca de presentes. E dá-lhe flores e bombons que vão durar mais tempo que o relacionamento.

Esta é a realidade, e infelizmente a coisa não vai muito longe disso. Mas antes que vocês pensem que eu, o Sr. Apêndice, estou mais uma vez despejando um recalque insensato em cima de uma ocasião necessariamente importante no mundo das relações, eu me defendo: é normal se sentir assim. Afinal, a culpa não é nossa, pobres mortais atirados no Coliseu do amor e entregues aos leões da realidade. É a nossa sina, e nós que vamos morrer, saudamos o imperador.

Bem, depois deste manifesto, creio que não vou parecer tão cretino em desejar a todos, namorados, solteiros, casados ou enrolados um Feliz Dia dos Namorados! Aproveitem seus ursinhos de pelúcias e suas fronhas de melhor namorado(a) do mundo, e se exibam bastante. Corram, e arranjem logo alguém para você sair para jantar neste dia 12, porque daqui há alguns dias, ninguém vai se importar mais com isso...

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Era da Inocência

Os relacionamentos costumam mudar consideravelmente nossa visão de mundo, mas só quando eles jogam com nossa inocência e ingenuidade é que realmente começamos a entendê-los.


Três coisas que eu nunca deveria saber os verdadeiros e reais funcionamentos: democracia, restaurantes chineses e relacionamentos. O mundo parecia ser mais mágico quando eu não tinha o conhecimento de certas coisas que somente a experiência e a vivência me trouxeram. Vejam minha eterna cruzada com o amor; ele costumava ser doce como uma torta de chocolate quando ficava exposto na vitrine da confeitaria da vida. Hoje ele parece mais um pão integral macrobiótico, duro e quadrado como um tijolo. Como de um minuto para o outro eu deixei de comer torta de chocolate para comer um tijolo disfarçado de pão integral? Não sei, mas talvez a vida inteira tenha sido o tal tijolo integral. Eu que acreditava que ele tinha gosto de bolo de chocolate...

Sentimentos têm mesmo sua parcela de ingenuidade, e consequentemente, de infantilidade. Ora, o que é o platônico amor eterno para nós, senão uma espécie de Papai Noel para uma criança de 5 anos? Eu, por exemplo, achava que Papai Noel realmente existia. Quando me contaram que tudo era uma farsa, admito que demorei para assimilar. E nem digo que o decepcionante foi descobrir que Papai Noel era na realidade o meu tio com um travesseiro debaixo da roupa e de barba de algodão inebriada de champagne derramada. Não. Minhas desilusões com a crença do bom velhinho vieram a partir do momento em que descobri o "faça suas compras de Natal e pague só a primeira parcela em março, tudo sem juros no cartão!". Hoje, "ho-ho-ho" eu faço quando chegam às faturas do Mastercard.

Ok, mas deixando a indignação com o espírito do capitalismo de lado, a verdade é que os tempos se tornam duros a partir do momento em que a inocência é despejada a chutes do apartamento de ilusões pela síndica da realidade. Volto a dizer que os sentimentos, ainda mais quando começamos a desbravá-los, nos remetem a uma espécie de mundo "infantilóide", típico da TV Cultura com seus programas educativos
a la Castelo Rá-Tim-Bum. Nas questões amorosas e nos relacionamentos rola mesmo uma ingenuidade forçada, assim como a interpretação escrachada dos atores desses programas (quem não sentia vergonha alheia quando via aqueles babacas vestidos de passarinhos no "Passarinho que som é esse?").

Não que isso seja tão ruim assim, afinal, dizem que existe uma criança interior em todos nós. O problema é que essa pirralha insiste em se manifestar em momentos cruciais de nossas vidas, principalmente em nossos relacionamentos e em nas nossas escolhas políticas. Não sei se as manifestações dessa criança têm a ver com marmanjos colecionando figurinhas do Campeonato Brasileiro, ou com quarentonas comprando Barbies no Mercado Livre, alegando que são raras e de coleção. No entanto, imagino que todo o ranho e cocô nas calças que essa criança interior faz se transfere para nossa área sentimental. Ora, só isso pode explicar a quantidade de sujeira que fazemos em nossa vida amorosa, especialmente quando tomamos atitudes baseadas em nossa própria inocência dos fatos. Parecemos verdadeiras crianças com diarreia e sem a mãe para ir nos limpar.

Pois, seja na vida, seja no amor, há coisas que são como são e nunca ninguém as questiona. A gente só acredita e se resume a nossa insignificância. "Verdades universais" e "regras invisíveis e intransponíveis" simplesmente nos regem e nos comandam sem que nos realmente saibamos de onde elas surgiram ou quem foi o cretino que as inventou. Engolimos tantos "porque sim!" e balançamos sempre a cabeça, como crianças assustadas com o Bicho Papão que pode nos pegar caso façamos alguma bagunça.
Ingenuidade é fogo, mas quem vive dela nunca sente as queimaduras. É como ter todos os dentes permanentes, mas guardar um que eventualmente caia debaixo do travesseiro à espera da Fada do Dente. (Que por sinal, é uma baita mão de vaca! A muquirana só me deixava umas moedinhas que mal dava para comprar bala...)

Evidentemente, há casos e casos sobre inocência e ingenuidade. Nem todo mundo cai duas vezes no mesmo truque do "estou doente em casa", enquanto na realidade a criatura está na farra. Do mesmo jeito, existem ingênuos de plantão que vivem a chafurdar no engodo do "eu te amo para sempre" ou "você é a única pessoa do mundo para mim". Mas isso fica de acordo com a espessura da garganta ou com os limites da paciência para engolir qualquer bobagem.

Porém, mesmo assim, mesmo após levarmos centenas de cacetadas na cabeça, ainda persistimos em recorrer aos mesmos erros, todos baseados numa ingenuidade mais retornável que garrafa de vidro de Coca-Cola de 1 litro. E não adianta a história de que o mundo te endureceu após você ter perdido a inocência (sem alusões a virgindade, por favor...), e nem venham com o repeteco do "não caio mais nessa". Uma hora sempre falhamos em nosso próprio discurso.

É aquela coisa de apostar sempre na loteria, mesmo sabendo que você tem 99,7% de chances de não ganhar. Mas ah, vai que um dia você acerte e ganhe toda aquela bolada acumulada sozinho? Aproveite o otimismo que a Dona Ingenuidade te proporciona, compre um bilhete na loteria, coloque os números do Lost e boa sorte! Não, sejamos pé no chão. Melhor mesmo é fazer campanha para aquele candidato a deputado federal que te prometeu uma vaga de assessor e um salário de R$5,000 caso ele fosse eleito. Se ele não prometeu o mesmo para mais uma centena de gente? Claro que não, foi só para você. Não é mesmo, Dona Ingenuidade?

Ir contra nossas crenças, especialmente contra coisas que nos fazem bem, como o amor, é algo extremamente complicado. Atingir a aceitação da realidade dos fatos é uma tarefa de elevação e transcendência tão complicada que até um monge tibetano arrega. Quando caímos nos questionamentos cíclicos e sem respostas do tipo "por que meu relacionamento não deu certo?" ou "o que eu poderia ter feito de diferente?", ficamos novamente naquele esquema de criança na fase do "por quê?": "por que o céu é azul?", "por que Papai do Céu levou o Totó de nós?", por que a mamãe se tranca no quarto com o vizinho sempre que você vai trabalhar papai?".

Triste, mas nossa inocência e ingenuidade não nos preparam para evitar os golpes duros da vida, e nesse caso, o amor é faixa preta e campeão de vale-tudo. Porém, como só quem levou um soco na boca é que sabe quanto custa um implante dentário, vale ficar sempre alerta. Já dizia o pensador (pouco conhecido pela maioria, mas vai um momento de erudição gratuito para vocês) Roland Barthes: "sempre duvide do que é óbvio". É...

Sim, eu sei. Tantas desilusões provindas de tantos relacionamentos me deixaram um pouco paranoico. Mas faria diferença se eu não fosse?
Com ou sem ingenuidade, a vida continua a não nos dar certeza de nada. Ninguém pode nos dar nem 10 nem 100% de certeza de que tudo vai ser sempre perfeito como foi na lua de mel. Não, não há garantias de amor eterno, assim como ninguém muda suas atitudes românticas depois de uma conversa profunda e sensível. E por aí a coisa vai. Ou melhor, não vai.

Uma vez em uma conversa de MSN da vida me chamaram de recalcado por eu sustentar tais afirmações. Desculpem-me por ser emissário de notícias tão trágicas, mas os relacionamentos na vida real não são iguais aos dos filmes, novelas e livros do tipo "Querido John" ou "A Última Música". Foi mal aí, mas a vida não é assim. E mesmo que fosse, duvido que alguém aguentaria viver sempre daquele jeito, com toda aquela baboseira e melação, várias e várias vezes repetidas. Querem "um amor para recordar" todo santo dia? Vocês
realmente tem certeza disso? Então, boa sorte. E comprem bastante Engov e sal de fruta. (E recalcado é a PQP!)

Descobrir quais são os caminhos e as desembocaduras do fluxo dos relacionamentos pode não ser a coisa mais divertida do mundo, mas isso faz parte se queremos saber das grandes respostas das perguntas que eternamente nos urgem. Afinal, nem toda diversão é sempre diversão, sempre temos variáveis no nosso caminho. Nem todo sexo é bom, nem toda pizza tem queijo catupiry e nem todo parque de diversões tem montanhas-russas. É crianças, a realidade é outro departamento...

Falando em montanhas-russas, conhecer o funcionamento dos relacionamentos é como ir dar uma volta em uma. Assim como nos relacionamentos, elas nos divertem, nos assustam, são cheias de voltas, emoções, altos e baixos, náuseas, adrenalina e dos famosos frios na barriga. Quando chegamos ao final do percurso, ou vomitamos ou queremos ir de novo. E para nossa surpresa, se você anda demais na mesma montanha-russa, mesmo que seja uma daquelas gigantescas da Disneyworld, a emoção não será sempre a mesma. Os frios na barriga e até mesmo o coração na boca não são mais os mesmos depois de você ter decorado todas as curvas e
loops. Infelizmente, nos relacionamentos também é assim.

Mas você pode ainda conservar a ingenuidade que resta na sua criança interior e sair por aí procurando por outras montanhas-russas. Afinal, o que não falta no mundo são parques de diversão, e todos sempre têm a "a maior montanha-russa do mundo". Vão lá, levem suas crianças para passear. E não adianta, ninguém consegue conter uma criança, mesmo que seja a tal interior. Bem, todos sabem como age uma criança chata numa loja de brinquedos; quando ela quer algo e coloca isso na cabeça, a fedelha enche o saco, grita, chora e esperneia até ganhar. (Mas nada como umas palmadas para acalmar a peste...) Por isso pensem bem antes de darem vazão a inocente criança de dentro de vocês no mundo dos relacionamentos. Pois, conforme alguém me disse esses tempos, "quem dorme com uma criança, acorda mijado..."